Política
Anatomia do Caos traz Renan de volta à CPI da Covid, em Maceió
A exibição recoloca em discussão um capítulo que ainda permanece aberto na história brasileira
O Brasil parece ter pressa para esquecer a pandemia. As famílias que perderam parentes e os profissionais que foram para a linha de frente no combate ao coronavírus, não. o
Nesta quarta-feira (29/07), às 19h, o Centro Cultural Arte Pajuçara exibe o documentário Anatomia do Caos, dirigido por Dandara Ferreira. O senador Renan Calheiros, relator da CPI da Covid confirmou participação na sessão. Em seguida, o público participará de um debate com os militantes da saúde pública Alê Costa e Kátia Born.
A exibição recoloca em discussão um capítulo que ainda permanece aberto na história brasileira. Mais de 700 mil pessoas morreram de Covid-19 no país. Em Alagoas, foram registrados ao menos 7.331 óbitos e mais de 346 mil casos confirmados até 2024. Por trás dos números, ficaram famílias interrompidas, profissionais de saúde exaustos e uma sociedade marcada pelo medo, pelo isolamento e pela desinformação.
Anatomia do Caos estreou nos cinemas em 2 de julho e acompanha, a partir de imagens inéditas, os corredores, as reuniões e os bastidores da CPI instalada pelo Senado em abril de 2021. Com 89 minutos, o filme transforma a investigação parlamentar em registro político e humano de uma tragédia que não pode ser reduzida a estatísticas.
A investigação
Renan Calheiros teve papel central nesse processo. Escolhido relator, coube ao senador alagoano conduzir a organização das provas, examinar documentos, confrontar depoimentos e apresentar as conclusões da comissão.
Depois de seis meses, 69 reuniões e dezenas de depoimentos, a CPI aprovou, por sete votos a quatro, o relatório final elaborado por Renan. O documento ultrapassou 1.200 páginas e terminou com 80 pedidos de indiciamento — 78 pessoas e duas empresas.
Entre os investigados estava o então presidente Jair Bolsonaro. O relatório atribuiu a ele nove possíveis crimes, incluindo epidemia com resultado de morte, infração de medida sanitária preventiva, charlatanismo, prevaricação, crime de responsabilidade e crime contra a humanidade.
Eram conclusões de uma comissão parlamentar, que deveriam ser analisadas pelo Ministério Público, pela Procuradoria-Geral da República e pelos demais órgãos competentes.
A CPI expôs a demora na compra de vacinas, a defesa de medicamentos sem eficácia comprovada, a disseminação de informações falsas, a crise de oxigênio em Manaus e suspeitas envolvendo negociações para aquisição de imunizantes. Mais do que descobrir fatos isolados, mostrou que decisões políticas e administrativas tiveram consequências concretas durante uma emergência sanitária.
O relatório não tinha poder para condenar ninguém. A CPI investigou, apontou responsabilidades e encaminhou suas conclusões. A aplicação de punições dependia de outras instituições.
É justamente aí que o documentário toca em uma questão ainda incômoda: o que aconteceu com tudo aquilo?
Memória não é vingança
Anatomia do Caos não chega aos cinemas apenas para reconstituir uma disputa entre governo e oposição. O filme recupera um período em que a morte passou a fazer parte da rotina nacional e o debate científico foi contaminado pela polarização política.
Ao participar da sessão em Maceió, Renan volta simbolicamente ao trabalho que marcou de maneira mais profunda sua longa trajetória no Senado. Na CPI, foi alvo de ataques do governo Bolsonaro, enfrentou resistência dentro da própria comissão e assumiu a responsabilidade de transformar meses de investigação em um documento oficial.
Cinco anos depois, o debate não deve ficar restrito aos méritos políticos do relator. É necessário perguntar se as instituições deram respostas proporcionais à dimensão da tragédia e se o Brasil aprendeu alguma coisa com a pandemia.
Recordar não significa reabrir feridas por conveniência eleitoral. Significa impedir que decisões semelhantes sejam repetidas em uma futura emergência sanitária.

O cinema faz agora o que parte das instituições ainda não conseguiu fazer: devolver nomes, imagens e vozes a uma tragédia que alguns preferem transformar apenas em uma página virada.
A sessão desta quarta-feira oferece a Alagoas uma oportunidade rara. Não apenas assistir aos bastidores da CPI, mas ouvir seu relator e discutir por que, depois de mais de 700 mil mortes, o país ainda deve explicações às vítimas e às suas famílias.


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