Política

Juros da dívida de Maceió sobem 977% nos últimos quatro anos

A evolução anual do serviço da dívida mostra a velocidade desse crescimento

Por Blog de Edivaldo Junior 22/07/2026 12h12
Juros da dívida de Maceió sobem 977% nos últimos quatro anos
Rodrigo Cunha - Foto: Reprodução

A Prefeitura de Maceió prevê gastar R$ 133,75 milhões somente com juros e encargos da dívida em 2026. O valor é 977% maior que os R$ 12,42 milhões registrados em 2022, primeiro ano da série apresentada no Orçamento deste ano. Em quatro anos, essa despesa ficou praticamente dez vezes maior.

Quando são incluídas as amortizações, que representam o pagamento do principal dos empréstimos, o serviço total da dívida municipal chega a R$ 216,53 milhões neste ano.

O crescimento do custo da dívida ocorre no momento em que a gestão de Rodrigo Cunha pede autorização à Câmara Municipal para contratar até R$ 517 milhões em novos financiamentos, destinados principalmente a projetos de infraestrutura e à continuidade de obras na capital.

Os números do próprio orçamento mostram que Maceió passou a depender cada vez mais de operações de crédito para sustentar seus investimentos.

Evolução da dívida

Em 2022, o município gastou R$ 12,42 milhões com juros e encargos. Para 2026, a previsão é de R$ 133,75 milhões, alta de 977%.

As amortizações também aumentaram. Saíram de R$ 37,60 milhões, em 2022, para R$ 82,78 milhões previstos neste ano, crescimento de 120%.

Somados juros e amortizações, o serviço da dívida passou de R$ 50,02 milhões, em 2022, para R$ 216,53 milhões em 2026. O aumento foi de 333% 

A evolução anual do serviço da dívida mostra a velocidade desse crescimento:

• 2022: R$ 50,02 milhões;

• 2023: R$ 78,11 milhões;

• 2024: R$ 107,83 milhões;

• 2025: R$ 169,44 milhões;

• 2026: R$ 216,53 milhões.

Entre 2022 e 2026, considerando os valores realizados até 2024 e as previsões para 2025 e 2026, a Prefeitura terá destinado R$ 621,93 milhões ao pagamento de juros e amortizações.

Empréstimos chegam a R$ 1,54 bilhão

O crescimento do serviço da dívida acompanha a ampliação das operações de crédito. Em 2022, a Prefeitura realizou R$ 88,56 milhões em empréstimos. Em 2023, foram R$ 149,37 milhões. Em 2024, o volume chegou a R$ 118,71 milhões.

Nos três anos, as operações de crédito realizadas somaram R$ 356,65 milhões.

Para 2025, o orçamento municipal previu R$ 584,47 milhões em empréstimos. Em 2026, a previsão subiu para R$ 597,76 milhões.

Somando os valores realizados entre 2022 e 2024 e as previsões para 2025 e 2026, as operações de crédito alcançam R$ 1,54 bilhão. O volume previsto para este ano é 575% maior que o registrado em 2022.

É preciso considerar que os valores de 2025 e 2026 são previsões orçamentárias e não significam, necessariamente, que todo o dinheiro tenha sido ou será efetivamente contratado.

Da mesma forma, os R$ 517 milhões agora submetidos à Câmara podem estar incluídos, total ou parcialmente, na previsão de R$ 597,76 milhões para este ano. Por isso, os dois valores não devem ser somados automaticamente.

Investimentos perdem espaço

Os documentos orçamentários também permitem medir quanto os investimentos representaram da despesa total do município.

Em 2020, Maceió investiu R$ 117 milhões, equivalentes a 4,5% da despesa total. Em 2021, foram R$ 177,9 milhões, ou 6,6%. Em 2022, os investimentos chegaram a R$ 256,6 milhões, correspondentes a 7,3% do orçamento.

O salto ocorreu em 2023, quando os investimentos realizados alcançaram R$ 780,7 milhões, ou 17,7% da despesa total. Em 2024, foram R$ 903,9 milhões, equivalentes a 17% do orçamento.

Para 2025, a previsão foi de R$ 824,2 milhões, também próxima de 17% da despesa. Em 2026, embora o valor nominal suba para R$ 848,5 milhões, a participação cai para 15,1% do orçamento municipal.

A evolução mostra que o município ainda mantém uma previsão elevada de investimentos, mas passa a reservar uma parcela maior de seus recursos para o pagamento da dívida.

Em 2022, o serviço da dívida representava cerca de 1,4% da despesa total. Em 2026, passa a consumir aproximadamente 3,8% do orçamento.

Mudança no financiamento das obras

O cenário é diferente daquele vivido pela Prefeitura durante o primeiro mandato de JHC.

Naquele período, o município recebeu R$ 1,7 bilhão do acordo firmado com a Braskem, além de recursos relacionados à outorga da concessão do saneamento, emendas parlamentares e transferências articuladas em Brasília.

Essas receitas extraordinárias ampliaram a capacidade de investimento da Prefeitura e ajudaram a sustentar um ciclo de grandes obras na capital.

No segundo mandato iniciado por JHC e agora continuado por Rodrigo Cunha, a Prefeitura não conta, até o momento, com uma nova entrada extraordinária de recursos da mesma dimensão.

A alternativa encontrada para manter os investimentos foi ampliar a busca por financiamentos.

O Orçamento de 2026 prevê R$ 848,48 milhões em investimentos e R$ 597,76 milhões em operações de crédito. Os valores não podem ser comparados como se todo o investimento fosse necessariamente financiado por empréstimos, porque existem diferentes fontes e vinculações.

Ainda assim, a dimensão dos números revela o peso crescente do crédito na estrutura financeira das obras municipais.

A peça orçamentária também aponta déficit de R$ 253,3 milhões no orçamento de capital. As despesas de capital, que incluem investimentos e amortizações, superam as receitas previstas especificamente para essa finalidade.

Câmara decide

Para Rodrigo Cunha, a aprovação dos novos financiamentos tornou-se essencial para manter parte das obras anunciadas e preparar novos investimentos.

Sem o aval da Câmara e a posterior liberação dos recursos pelos bancos, a Prefeitura terá dificuldade para preservar o ritmo de entregas registrado durante a gestão de JHC.

O ambiente político também mudou. JHC e Rodrigo Cunha perderam proximidade com parlamentares federais que tiveram participação importante na liberação de emendas e recursos para Maceió nos últimos anos.

Uma eventual redução das transferências voluntárias e das emendas aumentaria ainda mais a dependência de empréstimos.

Os novos financiamentos garantem recursos imediatos para as obras. Mas também ampliam o compromisso dos próximos orçamentos com juros e amortizações.

Em 2026, antes mesmo da contratação de novos empréstimos, essa conta já chega a R$ 216,5 milhões.