Política

Soberania inegociável: por que o Brasil resiste à influência dos EUA na América

Apesar dessa tendência regional, o Brasil demonstra resistência a essa influência externa

Por Sputnik Brasil com Redação 10/07/2026 05h05
Soberania inegociável: por que o Brasil resiste à influência dos EUA na América
Foto: © Marcelo Camargo/Agência Brasil

A América do Sul vive uma nova onda de governos conservadores, conhecida como "Onda Azul". Recentemente, Colômbia e Peru elegeram presidentes de direita que defendem maior alinhamento com os Estados Unidos. Apesar dessa tendência regional, o Brasil demonstra resistência a essa influência externa.

Se a "maré rosa" marcou o avanço da esquerda latino-americana nos anos 2000, o cenário atual aponta para uma guinada à direita. No final do ano passado, Rodrigo Paz e José Antonio Kast assumiram os governos de Bolívia e Chile, respectivamente, enquanto Abelardo de la Espriella e Keiko Fujimori venceram eleições em Colômbia e Peru. Santiago Peña, no Paraguai, e Javier Milei, na Argentina, completam o grupo de líderes conservadores na região.

O subcontinente tornou-se alvo do governo de Donald Trump, com o qual muitos desses governantes buscam alinhamento. Em julho do ano passado, ao parabenizar Milei pela vitória legislativa, Trump declarou estar "concentrando muito na América do Sul e conseguindo forte controle no continente em muitos sentidos".

No segundo mandato, Trump elegeu a segurança como prioridade para ampliar a presença dos EUA na América do Sul. Entre as ações, destacam-se bombardeios na costa da Colômbia e Venezuela, o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, a criação do Escudo das Américas e um acordo com o Paraguai que permite a presença de militares norte-americanos em solo paraguaio. O Brasil, principal potência regional, também é alvo de tentativas de influência. O governo Trump pressiona por apoio brasileiro à classificação de grupos criminosos como organizações terroristas, mas esbarra no compromisso de Brasília com a soberania nacional.

No cenário interno, temas como segurança pública, tarifas e mudanças no Pix — áreas em que Trump tenta interferir — se tornaram centrais nas eleições de outubro. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atua para conter a ingerência americana, seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), sinaliza aproximação com Washington e defende maior alinhamento aos Estados Unidos em sua campanha.

Essas questões, porém, transcendem o debate ideológico e mostram que a sociedade brasileira valoriza a autonomia nacional. "A população e o setor produtivo identificam o sistema [Pix] como um patrimônio de inclusão financeira e eficiência nacional", explica Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo Bressan, a resistência brasileira à influência dos EUA não é conjuntural, mas resultado de uma política externa construída ao longo do tempo, baseada na busca por autonomia e multilateralismo.

"O Brasil sempre defendeu o multilateralismo, desde o período da democracia, que ainda é incipiente. [...] Os indicadores empíricos dessa autonomia se destacam pela consolidação da China como um dos principais parceiros do Brasil e, ao meu ver, o BRICS vai ganhando mais institucionalidade", acrescenta.

Outros especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam que fatores econômicos e populacionais também dificultam a influência direta estrangeira sobre Brasília.

Fernanda Carvalho Calado Coutinho, doutoranda em estudos estratégicos da defesa e pesquisadora de América do Sul pelo Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) da Escola de Guerra Naval (EGN), destaca que a economia brasileira é mais complexa e o país mais populoso que seus vizinhos.

"É justamente essa característica que torna inferências externas igualmente mais complexas. A estratégia que me parece plausível é avançar pelos 'flancos' mais vulneráveis. Acho que os EUA encontraram um considerável: organizações criminosas", destaca.

Por outro lado, os objetivos geoestratégicos dos Estados Unidos para a América do Sul dependem da postura adotada por Brasília, dada a liderança regional do Brasil.

"Qualquer projeto de governança regional ou de isolamento de atores considerados antagônicos se mostra ineficaz sem a anuência ou cooperação ativa do Estado brasileiro", ressalta Bressan.

Coutinho afirma ainda que a soberania é um bem inegociável para o Brasil. "Quem não compreender isso, não levará as eleições de 2026".

Bressan reforça que a busca por autonomia não é exclusiva de um governo, mas tradição institucional do Estado brasileiro. "A sociedade e a burocracia brasileira tendem a rejeitar alinhamentos automáticos ou submissões de caráter unipolar, por compreenderem que o interesse nacional se realiza por meio da inserção soberana em múltiplos fóruns globais, e não pela simples subordinação ao status quo de uma única potência".

Resistência à ingerência estrangeira é movimento histórico

O atual posicionamento do Brasil diante das investidas norte-americanas é mais um capítulo de uma trajetória marcada por momentos em que a soberania e os interesses nacionais foram priorizados.

Um exemplo citado pelas analistas são as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), proposta pelos EUA em 1994 para criar uma ampla zona de livre comércio no continente. O Brasil foi um dos principais focos de resistência, contribuindo para o fracasso da iniciativa, que foi paralisada em 2005 após forte oposição de diversos países.

Naquele período, o Brasil apostou no fortalecimento do Mercosul, criado em 1991, o que ajudou a rejeitar a proposta norte-americana. "Enquanto diversos países da região cederam às pressões e assinaram tratados de livre comércio bilaterais com os EUA, a diplomacia brasileira liderou uma resistência técnica e política coordenada no âmbito do Mercosul", afirma Bressan.

Coutinho lembra ainda do papel do então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, como símbolo do enfrentamento à ALCA, consolidando o fracasso da proposta e fortalecendo a agenda de integração sul-americana na Cúpula das Américas de 2005, em Mar del Plata, na Argentina.