Política

Lula busca ampliar influência do Brasil em G7 na França

Em coletiva de imprensa, Lula destacou que a ausência de Estados Unidos e União Europeia em regiões emergentes abriu espaço para que a China se apresentasse como parceiro estratégico

Por Sputnik Brasil com Redação 18/06/2026 05h05
Lula busca ampliar influência do Brasil em G7  na França
Foto: © AP Photo / Julia Demaree Nikhinson

Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil analisam a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cúpula anual do G7, realizada em Évian, França. O líder brasileiro intensificou discussões sobre a necessidade de reformas em organizações internacionais e buscou fortalecer o diálogo com grandes potências.

O presidente Lula encerrou nesta quarta-feira (17) sua décima participação no G7, evento que reuniu as principais economias industrializadas do mundo. Como convidado, o Brasil concentrou esforços em temas como mudanças climáticas e a reforma de órgãos multilaterais, a exemplo da ONU.

Em coletiva de imprensa, Lula destacou que a ausência de Estados Unidos e União Europeia em regiões emergentes abriu espaço para que a China se apresentasse como parceiro estratégico. O presidente também minimizou a falta de uma reunião bilateral com Donald Trump, presidente dos EUA, e comentou sobre a ascensão de Elon Musk, afirmando: "Não é normal".

Especialistas apontam que o G7, originalmente focado em questões econômicas, tem assumido um perfil cada vez mais político após a saída da Rússia, o que limita a atuação de países convidados como o Brasil. Gustavo Glodes Blum, pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Geociências da Unicamp, observa que, diante desse cenário, cabe à diplomacia brasileira tentar influenciar decisões por meio do discurso, já que não possui poder decisório nas reuniões restritas.

Blum destaca: "A participação enquanto convidado, de fato, busca influenciar, mas não tem capacidade de decisão. Então, à medida em que essas reuniões mais restritas vão se tornando mais a regra, o que resta ao Brasil é tentar influenciar os resultados, ainda que não em uma posição de um dos Estados-membros".

Carolina Pavese, professora de relações internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, avalia que o G7 se tornou um espaço mais protocolar e menos relevante para debates globais profundos. Para ela, o principal ganho do Brasil está nos encontros bilaterais, em que pode reforçar interesses e dialogar sobre temas sensíveis, como as barreiras comerciais impostas pela União Europeia.

Pavese ressalta: "É um encontro elitista, no qual se reforça uma perspectiva muito autocentrada dessas grandes potências em relação às prioridades globais. E as respostas tendem a ficar muito longe do que de fato se precisa para atender às necessidades dos países ausentes".

Sobre a estrutura do evento, a professora reforça que o G7 deveria ser um fórum mais informal e eficiente, mas perde função ao evitar discussões críticas, como o protecionismo.

Afastada dos EUA, Ucrânia busca diálogo até com Brasil

Sem o mesmo apoio dos Estados Unidos sob Joe Biden, o presidente ucraniano Vladimir Zelensky buscou ampliar contatos, incluindo uma reunião bilateral com Lula para tratar da operação militar especial russa. Segundo Blum, o tema não é prioridade para o Itamaraty, que prefere manter postura neutra e defender o diálogo entre as nações.

Blum afirma: "O Brasil não tem interesse [em discutir a operação], como já esteve interessado, por exemplo, na questão iraniana, de se apresentar como um mediador. Não é esse o interesse do Brasil".

Enquanto isso, para outros países do G7, como os EUA, urge encontrar termos para um cessar-fogo, enquanto a União Europeia vê o conflito como oportunidade para reaquecer sua indústria bélica e impulsionar a economia.

O pesquisador destaca: "A recuperação do complexo industrial militar europeu é uma solução macroeconômica para essa estagnação. Colocar jovens desempregados na indústria militar ou no Exército geraria uma resposta multiplicadora econômica importante".

Além disso, a entrada da Ucrânia como produtora de trigo na União Europeia poderia contribuir para conter a inflação dos alimentos, um desafio recente para o continente.

'Não existe filantropia no sistema internacional'

Em seu discurso final, Lula pediu que países ricos reduzam investimentos em armamentos e priorizem o combate à pobreza global, especialmente em regiões como África e América Latina.

O presidente citou: "O primeiro-ministro alemão [Friedrich Merz] chegou a dizer que ele está gastando 15 bilhões de euros por ano com a guerra da Rússia-Ucrânia. Esse dinheiro poderia ser investido na América Latina, na África".

Para Carolina Pavese, o discurso é repetitivo e pouco efetivo, pois "não existe filantropia no sistema internacional", nem mesmo em órgãos como a ONU, que tendem a ser controlados pelos Estados.

Por Sputnik Brasil