Polícia

PMs invadem terreiro fundado por Mãe Vera em Maceió e torturam filho de Ilaroixá, diz advogado

O jovem que estava sendo interrogado foi colocado na viatura e levado até uma casa abandonada onde foi agredido e torturado

Por Ylailla Moraes* 03/03/2023 13h01 - Atualizado em 03/03/2023 18h06
PMs invadem terreiro fundado por Mãe Vera em Maceió e torturam filho de Ilaroixá, diz advogado
O terreiro Abassá Angola, localizado no Conjunto Otacílio Holanda, na Cidade Universitária, em Maceió - Foto: Pedro Martins/INEG

O advogado Pedro Gomes, do Instituto do Negro Alagoano (INEG), denunciou que policiais militares alagoanos invadiram, nesta quinta-feira (2), o terreiro Abassá Angola, localizado no Conjunto Otacílio Holanda, na Cidade Universitária, em Maceió. A casa foi fundada por Mãe Vera, uma das principais líderes religiosas de Alagoas e que faleceu em setembro de 2022.

De acordo com o advogado, o neto sanguíneo de Mãe Vera estava na localidade quando foi abordado pelos policiais e interrogado sobre a existência de drogas e a localidade da "boca de fumo" da região. Após não obterem respostas, os policiais invadiram, sem mandado de busca e apreensão, o terreiro.

Mesmo sem encontrar evidências que apontassem práticas criminosas, o jovem que estava sendo interrogado foi colocado na viatura e levado até uma casa abandonada, ainda na região da Cidade Universitária, onde foi agredido e torturado.

“Um filho de santo e filho da atual yá do terreiro, que reside no local, foi abordado pela PM, jogado na viatura e submetido à sessão de tortura para confessar ser traficante, enquanto sua mãe esperava a viatura chegar com ele na Central de Flagrantes, o que não aconteceu”, relatou o advogado, em publicação nas redes sociais.

“Ele não está tão machucado, teve algumas lesões, alguns ferimentos aparentes, mas não houve uma gravidade maior. Não se queixava de muitas dores", disse Martins. Foi recomendado que o jovem fizesse uma denúncia sobre o caso, mas ele se recusou, com medo do que poderia acontecer.

Segundo Martins, já havia acontecido uma primeira abordagem, na semana anterior, em uma festa de carnaval e o neto da Ialorixá foi uma das pessoas revistadas. Nessa ocasião também não foi encontrado nada com o jovem.

O INEG informou que vai entregar, ainda hoje, uma notícia crime para a delegacia geral da Polícia Civil e pedir para que o caso de violência contra o jovem seja investigado por alguma delegacia especial. Já a invasão ao terreiro, Pedro Martins diz que vai direcionar o caso para a Delegacia Tia Marcelina - que trata de crimes contra minorias sociais. “A Dr. Rebeca, titular da Delegacia, já está ciente do caso. A gente está só aguardando a testemunha, que é a mãe dele estar disponível para fazermos a denúncia formalizada”, disse o advogado.

Ainda segundo ele, a instituição irá prestar suporte jurídico no caso e enquanto comissão da igualdade racial, exigir conjuntamente com a comissão de Direitos Humanos da OAB, que o acontecimento seja devidamente elucidado e que os acusados sejam identificados e sejam devidamente punidos.

Quando questionado sobre a prática de ameaça e tortura que aconteceu quando o jovem foi levado para a casa abandonada, ele afirmou que houve ameaças e coerção para que ele assumisse algo que não cometeu.

“Segundo relatos da vítima, a policia apresentou uma quantidade significativa de drogas e disse ‘olha, se você disser onde fica a casa desse pessoal, eu vou lhe dar isso aqui, se você não disser, eu vou dizer que encontrei isso com você e você vai cair’. Outra denúncia que ele fez pra gente foi que eles estavam com uma arma de numeração raspada e pegaram a arma e botaram na mão dele e disseram ‘a partir de agora já tem digital sua nessa arma, eu posso matar você agora, botar seu dedo para atirar em uma parede aqui e dizer que você veio a óbito porque estava trocando tiro com a gente e tentou fugir'".

O Jornal de Alagoas entrou em contato com a assessoria de comunicação da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AL) para saber o posicionamento da secretaria diante da denúncia. Até o momento não obtivemos resposta. O espaço está aberto para atualização.

*Estagiária sob supervisão