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Brasil registra um caso de violência política a cada dois dias

A pesquisa, que completa dez anos, aponta que o período pré-eleitoral foi o mais violento da série histórica. Em comparação com o levantamento anterior, houve aumento de 18,4% na violência política. Ao todo, 299 casos foram registrados entre 1 de novembro

Por Sputnik Brasil 02/10/2026 16h04
Brasil registra um caso de violência política a cada dois dias
Foto: © Sputnik / Solon Neto

O Brasil registrou um caso de violência política a cada dois dias entre outubro de 2024 e agosto de 2026, incluindo períodos sem eleições.

Os dados são da 4ª edição do estudo sobre Violência Política e Eleitoral no Brasil, realizado pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, divulgado nesta quarta-feira (30).

Segundo o levantamento, entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, foram contabilizados 354 episódios de violência política, o que representa uma ocorrência a cada 44 horas. Apenas em 2025, ano sem eleições, foram registrados 225 casos.

Os números referentes ao primeiro turno da campanha eleitoral de 2026, que vai de 16 de agosto a 4 de outubro, serão divulgados na próxima semana.

A pesquisa, que completa dez anos, aponta que o período pré-eleitoral foi o mais violento da série histórica. Em comparação com o levantamento anterior, houve aumento de 18,4% na violência política. Ao todo, 299 casos foram registrados entre 1º de novembro de 2022 e 15 de agosto de 2024.

O estudo revela que a violência acompanha o exercício parlamentar ao longo do ano, especialmente no âmbito municipal, que concentra 63% dos casos. Em 96,3% das ocorrências, as vítimas já exerciam mandatos ou cargos públicos.

A letalidade segue o mesmo padrão: dos 28 episódios com intenção letal (incluindo 11 assassinatos e 17 atentados), 24 atingiram agentes políticos locais.

“A violência política é um fenômeno permanente [...] atinge diretamente quem ocupa espaços de decisão e exerce poder sobre contratos e recursos públicos. A pesquisa mostra que inclusive grupos criminosos e até mesmo policiais estão entre os responsáveis pelos atos de violência”, explicou Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global.

A pesquisadora destacou a necessidade de aprimorar mecanismos de prevenção, proteção, investigação e responsabilização para enfrentar a violência política de forma contínua.

Desde 2016, a pesquisa mapeou 1.937 episódios de violações contra agentes políticos e lideranças, com base em dados da cobertura jornalística nacional e regional, cruzados com registros oficiais e denúncias públicas.

Violência municipal é recordista

Vereadores representam 49,6% das vítimas, com 176 episódios identificados. Dos 11 assassinatos registrados, dez foram de políticos municipais. Eles também somam 14 das 17 vítimas de atentados e 24 dos 28 episódios classificados como de intenção letal. Não houve assassinatos de políticos na esfera federal.

Análise por partido mostra que agentes de legendas de esquerda são os principais alvos: 30,23% das vítimas são do PT e do PSOL. No PSOL, um em cada cinco vereadores eleitos em 2024 foi vítima de violência política (taxa de 287,5/mil). Foram 23 dos 80 vereadores eleitos pelo partido e 26 casos com representantes do PT. Em seguida aparecem PP (17 casos), PL (15) e União Brasil (14).

Mulheres negras são as maiores vítimas

Apesar de ocuparem apenas cerca de 18% das cadeiras legislativas, segundo o TSE, as mulheres foram alvo de metade dos episódios de violência política (50,6%), incluindo cisgêneras, transexuais e travestis.

A violência física (agressões, atentados e assassinatos) teve homens como alvo em 77,2% dos casos, enquanto a violência simbólica (ameaças e ofensas) atingiu majoritariamente mulheres (58,3%). Ameaças de violência sexual (31 casos) e episódios com teor sexual ou comentários sobre corpo e aparência (67 casos) tiveram 100% de vítimas femininas.

A composição racial varia conforme o gênero: entre as mulheres, uma em cada três é preta (64 de 179); entre os homens, uma em cada nove. Mulheres são 64 dos 84 episódios contra pessoas pretas, sendo 11 delas trans ou travestis. Também foram vítimas quatro mulheres indígenas e uma amarela.

Das 32 pessoas que sofreram ataques repetidos ao longo dos 22 meses, 23 foram mulheres. Mulheres negras (pretas e pardas) representam 22,8% do total de vítimas e mais da metade dos episódios de repetição de violência.

As quatro ameaças assinadas por grupos ou perfis declaradamente neonazistas ou supremacistas tiveram como alvo mulheres pretas em quatro estados: a prefeita Professora Nilda (RN) e as vereadoras Alice Carvalho (RS), Vivi Reis (PA) e Adriana Gerônimo (CE).

“Os dados da 4ª edição confirmam que a violência política contra as mulheres é sistêmica e evidenciam o quanto o nosso sistema democrático impede o acesso das mulheres aos espaços de poder e decisão”, afirma Gisele Barbieri, coordenadora de incidência política da Terra de Direitos.

Impunidade amplia violência

Segundo Barbieri, a impunidade contribui para o aumento da violência política:

“Precisamos de respostas urgentes para esses crimes, exigindo do Estado a aplicação das sanções previstas na Lei 14.192/2021, para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. É necessário também ampliar o escopo das legislações para punir as especificidades da violência contra mulheres transexuais, travestis e negras, que atingem altos índices de perversidade e, nesta edição, foram as únicas vítimas de ameaças de grupos neonazistas”, defende.

Dos 300 episódios denunciados (84,5%), apenas 46 casos (13%) têm apuração judicial ou policial em curso, e somente nove (2,5%) resultaram em punição efetiva dos autores.

Agressões dentro do parlamento e no ambiente virtual

Em 64 episódios (18,1% do total), o agressor também possuía mandato eletivo ou cargo público. Somando policiais e outros agentes estatais, os ataques cometidos por representantes do próprio Estado chegam a quase um terço dos casos (29,9%).

Em 52 episódios, as agressões ocorreram no local de trabalho parlamentar, como plenários e sessões de comissões. A pesquisa destacou o caso da ex-ministra Marina Silva, alvo de três ofensas por parlamentares em menos de quatro meses, incluindo uma declaração de um senador sobre “tolerar Marina seis horas e dez minutos sem enforcá-la”.

No ambiente virtual, que concentra 42,8% dos episódios (152 casos), o anonimato predomina: em 48% dessas ocorrências, não foi possível identificar o autor do ataque.

Crime organizado

Cerca de 7% dos casos (26 episódios) têm indícios de envolvimento de facções criminosas, sendo a maioria no Ceará (12), seguido por Rio de Janeiro (4) e São Paulo (3). O caso mais grave ocorreu em Mossoró (RN), quando um assessor foi assassinado e um vereador sofreu atentado no mesmo local e momento. O padrão observado é de captura de território, não de retaliação pessoal. A ameaça é o tipo de violência mais frequente (193 casos), seguida de ofensa (71), agressão física (51), atentado (17), assassinato (11), criminalização (6) e invasão (5).

Por Sputinik Brasil