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All in: como as bets afetam a saúde mental, as relações e a paz das família

Na etapa qualitativa, o estudo ouviu 60 pessoas entre 18 e 58 anos, residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe

Por Sputnik Brasil 03/09/2026 17h05
All in: como as bets afetam a saúde mental, as relações e a paz das família
Foto: © Joédson Alves/Agência Brasil

O perfil do apostador brasileiro é tradicionalmente associado ao público masculino. No entanto, a pesquisa "Mulheres e Bets", realizada pelo Estúdio Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA, revela que 42% das mulheres já apostaram ou apostam atualmente. E os impactos dessa prática vão muito além das perdas financeiras.

"A parte mais triste de você estar sem dinheiro é quando você tem filhos, é quando seu filho pede uma coisa que você não pode comprar (...). E eles não entendem (...). Ele tá te vendo ali como um símbolo de mãe que sempre tem que ter dinheiro (...) você arruma de qualquer jeito, você trabalha, você tem que ter", relatou à pesquisa uma apostadora de 43 anos, moradora do estado de São Paulo.

Na etapa qualitativa, o estudo ouviu 60 pessoas entre 18 e 58 anos, residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Mariana Ribeiro, diretora do Estúdio Clarice, destaca que, durante a pandemia de COVID-19, o aumento do custo de vida e o desemprego, aliados à baixa regulamentação das apostas de quota fixa, criaram a "tempestade perfeita" para a proliferação das bets e jogos online no país. Assim, muitos enxergaram nas apostas uma alternativa de retorno financeiro rápido diante da necessidade.

"Muitas mulheres nos relataram isso: 'Eu achei que as bets eram uma voz de Deus conversando comigo, uma luz no fim do túnel para uma situação de muito apuro financeiro que eu estava passando'", revela Ribeiro.

Segundo a pesquisa "Raio X do Investidor Brasileiro", da Anbima em parceria com o Datafolha, o perfil predominante do jogador brasileiro ainda é masculino: 66% são homens, com média de 35 anos. Contudo, 42% das mulheres no Brasil já apostaram ou apostam, e outras 12% relatam ser impactadas pelas bets devido a familiares próximos que desenvolveram problemas com jogos online.

A maioria das mulheres apostadoras (49%) prefere cassinos online, como roletas e o jogo do Tigrinho. Outras 29% optam por jogos de sorte instantânea (raspadinha, Aviator), enquanto 26% realizam apostas esportivas.

O recorte de gênero, conforme a pesquisa "Mulheres e Bets", evidencia crises que vão além do impacto financeiro, atingindo relações afetivas e familiares. "Apostadoras ou não, as mulheres são as mais impactadas, pois administram as dimensões materiais e emocionais da maioria das famílias brasileiras", aponta o estudo.

O cuidado como porta de entrada

O estudo mostra que, para as mulheres, o ingresso nas apostas não se dá pela busca de entretenimento ou adrenalina, mas pelo cuidado com a família.

"Ano passado, um dos meus filhos ia fazer aniversário e eu não tinha dinheiro para comprar bolo, eu tinha R$10. Nos grupos de WhatsApp, as meninas fazem meia para jogar: você coloca dez, eu te devolvo cinco, com o link dela. Eu coloquei os R$10, apostei e ganhei R$300. Salvou: comprei o bolo. Era meu único R$10 antes do pagamento", relata uma apostadora de 40 anos, de São Paulo.

Ribeiro explica que as entrevistadas vivem o que a pesquisa chama de "vida mínima": uma rotina apertada, voltada apenas para necessidades básicas, sem espaço para pequenos prazeres. Nesse contexto, as apostas surgem como promessa de alívio rápido para cumprir o papel social de provedoras e cuidadoras.

O problema é que, ao buscar essa solução, muitas acabam perdendo mais do que ganham, aumentando as dívidas e a dificuldade de sustentar a casa.

Segundo Ribeiro, os efeitos são devastadores: as mulheres se sentem incapazes de cumprir seu papel social, frustradas por não vencer no jogo e culpadas por não conseguirem cuidar da família.

Ao internalizar a culpa, muitas deixam de perceber que o jogo é construído de forma predatória. "Quando ela perde, acredita que foi por não ter sido apta, por perder o controle ou por jogar de forma emocional", acrescenta a pesquisadora.

Os impactos na saúde mental são evidentes: entre 209 mulheres ouvidas, 20% relataram ansiedade após começarem a apostar; 9% tiveram crises de pânico, 11% desenvolveram depressão e 12% reconhecem o vício em apostas.

Outro dado relevante: mães apostam 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos, devido à pressão do papel de cuidadora e provedora.

Além disso, mães que não apostam também relatam problemas com filhos envolvidos em apostas, incluindo casos de automutilação e tentativas de suicídio associadas ao vício. Uma mãe chegou a fazer vigília noturna na porta do quarto do filho por medo de uma nova tentativa ligada às apostas.

Outro padrão recorrente é a quebra de confiança em casa: mesmo quando um parceiro ou filho afirma ter parado de apostar, as mulheres vivem em estado de hipervigilância, sem conseguir confiar plenamente.

O estudo aponta ainda que 23% dos brasileiros já testemunharam situações de violência ou agressividade relacionadas a apostas online. Para Mariana Ribeiro, o dado é alarmante, pois pode estar subestimado devido ao constrangimento em relatar esses episódios.

Dos influenciadores às relações de confiança: mulheres são cooptadas pelas bets

A publicidade ostensiva das bets está presente em todos os meios: redes sociais, TV, grandes eventos e até espaços públicos. "Esse tipo de articulação contribui para naturalizar as apostas, transmitindo a ideia de que são normais e estão em todos os lugares", explica Ribeiro.

Além dos grandes influenciadores e celebridades, microinfluenciadores e pessoas do convívio social atuam como vetores decisivos para a entrada das mulheres nas apostas, muitas vezes por meio de links compartilhados por amigas, parentes ou colegas de igreja.

"Na igreja, uma irmã perguntou se alguém jogava. Ela contou que estava jogando e tinha ganhado. Depois, ofereceu o link. Fiquei com aquilo na cabeça. Todo mundo comentando que ganha. Será que eu vou ganhar também? Fui lá e apostei. Perdi na primeira vez e fiquei traumatizada. Depois vi minha mãe jogando, todo mundo da família jogando. Aí comecei a me iludir também", conta uma apostadora de 47 anos, da Bahia.

Segundo Ribeiro, muitas mulheres sabem que seus ganhos dependem da perda de quem convidam, o que pode abalar profundamente as relações quando esse mecanismo é descoberto.

Elas também são a porta de saída

Apesar do cenário de vulnerabilidade, a pesquisa conclui que as mulheres não devem ser vistas apenas como vítimas, mas como agentes estratégicos para enfrentar o problema.

Entre 1.062 mulheres ouvidas, 62% apoiam a proibição das casas de aposta; 67% acreditam que as bets estão destruindo famílias e 74% consideram que as apostas estão viciando os brasileiros.

Há um consenso social, independente de ideologia, pela restrição das apostas online — e as mulheres são as mais vocalizadas nesse posicionamento.

Entrevistadas sugerem que a publicidade das apostas siga restrições semelhantes às adotadas para álcool e cigarro. 41% das mulheres defendem a proibição das propagandas de bets.

Para Ribeiro, políticas públicas sobre o tema precisam ser construídas com a participação direta das mulheres, seja para acolher apostadoras, seja para atender familiares impactados em serviços como SUS, UBS ou CRAS.

"Não vamos conseguir criar uma solução no Brasil para esse tema sem passar pelas mulheres, porque são elas que hoje absorvem mais esses impactos e também estão mais prontas a serem mobilizadas", conclui a pesquisadora.

Por Sputnik Brasil