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Parceria entre Brasil e Abu Dhabi em defesa cibernética fortalece laços

O COE tem como objetivo proteger sistemas e redes das Forças Armadas e de outras instituições federais, promovendo capacitações para enfrentar ataques, treinamentos para evitar invasões e desenvolvendo uma doutrina nacional para esse tipo de ameaça

Por Sputnik Brasil 03/09/2026 17h05
Parceria entre Brasil e Abu Dhabi em defesa cibernética fortalece laços
Foto: © Foto / Divulgação / EDGE Group

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas analisam as vantagens da parceria entre o Exército Brasileiro e o EDGE Group, dos Emirados Árabes Unidos, e reforçam a necessidade de estratégias de longo prazo para a industrialização nacional por meio da tríplice hélice.

O Exército Brasileiro e o conglomerado emiradense EDGE Group anunciaram, no final do último mês, uma parceria para o desenvolvimento e criação do Centro de Excelência em Defesa Cibernética (COE). Segundo os responsáveis pelo projeto, esta será a primeira instalação desse tipo na América Latina a operar sob o modelo da tríplice hélice: governo, academia e indústria.

O COE tem como objetivo proteger sistemas e redes das Forças Armadas e de outras instituições federais, promovendo capacitações para enfrentar ataques, treinamentos para evitar invasões e desenvolvendo uma doutrina nacional para esse tipo de ameaça.

De acordo com nota do EDGE Group, "a iniciativa reflete um compromisso estratégico e paritário entre as duas instituições fundadoras de estabelecer uma organização permanente, com padrões internacionais de referência, para atender às demandas de cibersegurança do Brasil e contribuir para a região em geral".

O grupo emiradense informou ainda que "os parceiros fundadores realizarão investimentos diretos na instituição", sem, contudo, detalhar os valores ou a localização da sede do COE.

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil afirmam que a parceria reforça o compromisso de Brasília com o Sul Global, mas alertam para a necessidade de transformar o projeto em um passo inicial para o desenvolvimento de uma indústria e tecnologia nacionais.

Juliana Zaniboni, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (PPGEST/UFF) e especialista em cibersegurança e ciberdefesa, ressalta que é preciso olhar além do acordo em si e questionar se há um projeto de longo prazo por trás da parceria.

"Se o Brasil faz esse tipo de negociação, essa ideia de transferência de tecnologia, mas ao mesmo tempo não tem essa política ou esse entendimento a longo prazo de como transformar essa tecnologia em nacional, de fazer disso um processo de industrialização [...], essas transferências não seriam pensadas a longo prazo."

Zaniboni destaca que a cooperação aproxima Brasil e Emirados Árabes Unidos, relação que se intensificou após a entrada de Abu Dhabi no BRICS. No entanto, ela lembra que o país árabe é aliado dos Estados Unidos e questiona se o desenvolvimento do COE com um parceiro externo garante de fato a soberania brasileira.

"A ideia de soberania é ter a gerência sobre infraestruturas, ter o poder. Se você se mantém nesse lugar de compra eterna, será de fato uma soberania? Os EAU são parceiros, tudo bem, mas, caso algo no sistema internacional mude e esse tipo de compra não seja mais possível, o que o Brasil fará?"

João Gabriel Brumann, professor de relações internacionais da UniRitter e pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), defende que o ideal seria o Brasil desenvolver o COE de forma autônoma, mas não vê riscos à soberania nacional. Ele valoriza a transferência de expertise do grupo emiradense e o aporte financeiro que pode viabilizar a tríplice hélice.

"Não pode ser considerada uma diminuição da nossa autonomia ou soberania, na medida em que deve envolver contrapartidas, o que chamamos de offset. Até onde foi divulgado, trata-se de uma parceria, de um desenvolvimento conjunto, o que é extremamente comum na área de defesa."

Brumann ressalta a escolha de um parceiro fora da OTAN, o que reforça a pluralidade de alianças brasileiras no campo da defesa. Para ele, o acordo não é uma afronta a nenhuma nação específica, mas demonstra que o Brasil busca aliados além do Norte Global.

"Isso é realmente uma ampliação de laços do Brasil, é o funcionamento de uma diplomacia de defesa voltada para o Sul Global, para os países em desenvolvimento. Pode ser uma forma de demonstrar autonomia e de mostrar que o Brasil é capaz de articular outros parceiros para continuar se capacitando em defesa."

O grupo emiradense mais brasileiro?

Levantamento do site InvestNews mostra que o EDGE Group já adquiriu participações em três empresas de defesa nacionais: 100% da Akaer (tecnologia aeroespacial, energia e automotiva), 51% da Condor (tecnologias não letais) e 50% da SIATT (mísseis).

Zaniboni observa que os Emirados Árabes Unidos têm diversificado investimentos em defesa, sendo o Brasil o segundo maior parceiro no continente, atrás apenas dos Estados Unidos, que viram empresas de inteligência artificial migrarem para Abu Dhabi.

Do ponto de vista econômico, a especialista não vê o Brasil em pé de igualdade com o EDGE Group no projeto do COE.

"Acho que esse acordo se torna mais vantajoso para eles, que estão ativamente diversificando o mercado. Em relação ao Brasil, tenho ressalvas. Não estamos levando nossa tecnologia, estamos em uma posição mais subalterna."

Brumann, por outro lado, acredita que a venda das aeronaves multimissão Embraer C-390 aos Emirados Árabes Unidos pode ter contribuído para o estreitamento dos laços de defesa entre os dois países.

"Como o Brasil pratica cláusulas de offset para si, outros países também praticam para eles. É provável que isso tenha sido negociado no pacote ou que tenha aberto essa possibilidade devido à aquisição do C-390."

Segundo Brumann, a escolha do Exército Brasileiro para liderar o projeto se deve ao planejamento estratégico estabelecido no Livro Branco de Defesa Nacional, publicado em 2012. O documento também prevê que a Marinha desenvolva planos sobre energia nuclear e a Força Aérea cuide da área aeroespacial.

"O Livro Branco deixa clara essa divisão de responsabilidades nos projetos estratégicos brasileiros. É o Exército que possui expertise e articulação para a ciberdefesa."

Por Sputnik Brasil