Nacional

Deputada faz “blackface” na Alesp e gera reação e denúncia

Parlamentar afirma que ato foi uma "crítica" a mulheres trans; colegas acusam racismo e anunciam medidas na Comissão de Ética

Por Redação com g1 18/03/2026 17h05
Deputada faz “blackface” na Alesp e gera reação e denúncia
Deputada fez 'blackface' durante uma sessão na Alesp - Foto: Reprodução/YouTube

A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) protagonizou uma cena polêmica nesta quarta-feira (18), ao se pintar de preto durante discurso no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), prática conhecida como “blackface” e amplamente considerada racista por remeter a estereótipos históricos usados para ridicularizar pessoas negras.

Ao justificar o ato, a parlamentar afirmou que a encenação tinha como objetivo sustentar o argumento de que pessoas trans não são mulheres, mesmo que se maquiem. A atitude gerou reação imediata entre colegas deputados e críticas nas redes sociais.

Durante o discurso, Fabiana começou destacando que é uma mulher branca e questionou se, ao se maquiar como uma pessoa negra, passaria a compreender as vivências e dores da população negra. Foi nesse momento que iniciou a pintura no próprio rosto.

“Eu, sendo uma pessoa branca, agora decido me maquiar como uma pessoa negra. E eu pergunto: eu virei negra? Eu senti o desprezo da sociedade?”, disse.

A deputada também associou a comparação ao debate sobre identidade de gênero e criticou a presença de mulheres trans em espaços voltados às mulheres cisgênero.

“Não adianta se travestir de mulher. Eu sou mulher. A mulher do ano não pode ser transexual”, afirmou.

Ela ainda mencionou a deputada federal Erika Hilton, que preside a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara, alegando que mulheres trans estariam ocupando espaços de mulheres.

Apesar das críticas, Fabiana declarou que pessoas trans devem ser respeitadas e não devem sofrer violência ou discriminação, mas reforçou que não concorda com a participação delas em determinados espaços.

A reação foi imediata. A deputada Ediane Maria (PSOL) anunciou que irá protocolar uma representação na Comissão de Ética da Alesp por quebra de decoro parlamentar, além de pedir investigação ao Ministério Público por racismo e transfobia.

“Fabiana Bolsonaro passou de todos os limites e cometeu racismo no plenário. Isso é um crime em flagrante”, afirmou Ediane nas redes sociais.

Internautas também criticaram a atitude durante a transmissão da sessão, com comentários como “Racismo é crime” e “Blackface não é liberdade de expressão”.

Entenda o que é “blackface”


O termo vem do inglês black (“negro”) e face (“rosto”) e se refere à prática de pintar a pele com tinta escura. Surgida no século 19, nos Estados Unidos, a técnica era usada por atores brancos em espetáculos para representar pessoas negras de forma caricata e ofensiva.

Segundo o professor da Unesp e ativista antirracista Juarez Xavier, o “blackface” está ligado à construção de estereótipos negativos.

“Essas imagens criam uma subjetividade que legitima a violência e a negação da cidadania da população negra”, explicou.

Historicamente, personagens representados com “blackface” eram retratados como preguiçosos, violentos ou incapazes, reforçando preconceitos raciais. A prática também se popularizou em outros países e chegou ao Brasil, especialmente em manifestações culturais como o carnaval.

Especialistas apontam que, mais do que uma simples caracterização, o “blackface” carrega um histórico de discriminação e exclusão, sendo considerado ofensivo e incompatível com os direitos fundamentais.