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Certidão de óbito de Zuzu Angel é retificada pelo governo federal após quase 50 anos

Novo documento reconhece que a morte foi violenta e causada pelo Estado brasileiro

Por Redação com g1 30/08/2025 16h04 - Atualizado em 30/08/2025 18h06
Certidão de óbito de Zuzu Angel é retificada pelo governo federal após quase 50 anos
Depois de quase 50 anos, certidão de óbito de Zuzu Angel é retificada pelo governo federal - Foto: Reprodução

A certidão de óbito de Zuleika Angel Jones, a Zuzu Angel, vítima da ditadura militar brasileira, foi retificada pelo governo federal após quase 50 anos. A entrega do documento foi feita na última quinta-feira (28), durante cerimônia na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

O novo documento reconhece que a morte foi violenta e causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição política promovida pela ditadura militar (1964-1985).

A retificação atende à resolução nº 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que determina que mortes de dissidentes políticos sejam registradas como não naturais e atribuídas ao Estado.

Além da família de Zuzu Angel, outras 20 famílias receberam certidões atualizadas de parentes mortos ou desaparecidos durante o regime.

A estilista morreu em 1976 em um suposto acidente de carro na saída do antigo túnel Dois Irmãos, em São Conrado, Zona Sul do Rio de Janeiro. 

Stuart Angel Jones

Em uma de suas visitas à casa do jornalista Zuenir Ventura, em abril de 1975, Zuzu deixou um bilhete manuscrito em que dizia:

“Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”. A lápis, acrescentou: “Esteja certo que não estou vendo fantasmas”, recordou o jornalista em uma entrevista.

Stuart Angel Jones era filho da estilista e figurinista e do americano Norman Jones, e era integrante do grupo socialista MR-8, que fazia luta armada contra o regime militar. 

Ele foi preso, torturado e morto por membro do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa) em 14 de junho de 1971, aos 25 anos. Sua mulher, Sônia Morais Jones, também teve o mesmo fim, já que era militante e guerrilheira. Ela foi morta anos depois e igualmente dada como desaparecida.

Durante anos, Zuzu lutou para esclarecer o caso do filho, mas morreu sem saber o seu paradeiro.

Em 1988, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu oficialmente a responsabilidade do regime pela morte da estilista.

Estilista de estrelas

Zuzu Angel ganhou destaque internacional ao vestir estrelas como Liza Minnelli e Joan Crawford, mas se tornou símbolo da resistência ao regime após a morte de seu filho.

Veja quem teve a certidão de óbito modificada:

  1. Adriano Fonseca Filho
  2. Antônio Carlos Bicalho Lana
  3. Antônio Joaquim de Souza Machado
  4. Arnaldo Cardoso Rocha
  5. Carlos Alberto Soares de Freitas
  6. Ciro Flávio Salazar de Oliveira
  7. Gildo Macedo Lacerda
  8. Eduardo Antônio da Fonseca
  9. Pedro Alexandrino Oliveira Filho
  10. Raimundo Gonçalves de Figueiredo
  11. Walkíria Afonso Costa
  12. Zuleika Angel Jones (Zuzu Angel)
  13. Hélcio Pereira Fortes
  14. Idalísio Soares Aranha Filho
  15. Ivan Mota Dias
  16. João Batista Franco Drumond
  17. José Carlos Novaes da Mata Machado
  18. José Júlio de Araújo
  19. Oswaldo Orlando da Costa
  20. Paulo Costa Ribeiro Bastos
  21. Paulo Roberto Pereira Marques

A previsão é de que 400 certidões sejam entregues até o final de 2025.