Municípios

Ilha do Ferro busca reconhecimento nacional para proteger artesanato

Reconhecimento poderá proteger a origem das peças e valorizar a produção artesanal da comunidade sertaneja alagoana

Por Redação 23/07/2026 15h03
Ilha do Ferro busca reconhecimento nacional para proteger artesanato
Indicação Geográfica busca preservar a autenticidade da arte produzida às margens do Rio São Francisco - Foto: Reprodução

Cada peça produzida na Ilha do Ferro carrega um pouco da história do povoado, da relação dos artesãos com a natureza e do modo de fazer que transformou a pequena comunidade ribeirinha em uma das maiores referências da arte popular alagoana. Agora, esse patrimônio cultural se prepara para receber um reconhecimento oficial.


Neste mês de julho, o Sebrae Alagoas realizou a última reunião presencial da consultoria especializada responsável por orientar o processo de solicitação da Indicação Geográfica junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O encontro marcou a conclusão das etapas iniciais necessárias para a organização da documentação que será protocolada pelo grupo.


Ao longo do trabalho, foram desenvolvidas ações como:

Delimitação da área geográfica da Ilha do Ferro

Fortalecimento da associação dos artesãos da comunidade

Elaboração das regras para utilização do selo de Indicação Geográfica

Criação do signo distintivo que representará o reconhecimento

Definição das características obrigatórias das peças produzidas no território


A iniciativa busca assegurar que apenas produtos efetivamente fabricados na comunidade possam utilizar o nome Ilha do Ferro, protegendo sua reputação e combatendo o uso indevido da identidade local.


A Indicação Geográfica é um reconhecimento concedido a produtos ou serviços cujas características, reputação ou modo de produção estejam diretamente ligados a um determinado território. Trata-se de uma certificação que garante ao consumidor a autenticidade e a procedência do produto adquirido.


Exemplos conhecidos desse reconhecimento incluem o Champagne, produzido na França, o Vinho do Porto, em Portugal, e o Queijo Canastra, em Minas Gerais. Embora produtos semelhantes possam ser fabricados em outros locais, eles não podem utilizar os nomes protegidos vinculados às suas regiões de origem.


Segundo a analista do Sebrae Alagoas, Marina Gatto, a certificação tem como principal objetivo reconhecer e proteger a relação entre um produto e o território onde ele é produzido.


“A Indicação Geográfica reconhece que, em um território específico, existe a produção de um produto ou serviço próprio daquele lugar. É uma forma de reconhecer e proteger aquele produto e a maneira como ele é feito”, explica.


Atualmente, o Brasil possui 150 Indicações Geográficas nacionais reconhecidas pelo INPI, sendo 119 Indicações de Procedência e 31 Denominações de Origem.


No caso da Ilha do Ferro, a certificação deverá oferecer maior segurança para consumidores e artesãos, além de dificultar a comercialização de peças produzidas fora da comunidade utilizando indevidamente o nome do povoado.


“O consumidor poderá adquirir uma peça com a certeza de que aquele produto realmente é da Ilha do Ferro. Hoje, já existem muitas cópias e produtos semelhantes sendo feitos por artesãos que não são da comunidade”, destaca Marina.


A obtenção do selo exige que os produtores estejam organizados e estabeleçam critérios claros sobre a produção e utilização da certificação.


Por isso, parte do trabalho desenvolvido pelo Sebrae foi dedicada ao fortalecimento da Associação dos Artesãos da Ilha do Ferro, presidida pelo artesão Yang da Paz. A entidade será responsável por protocolar o pedido junto ao INPI e participar diretamente da gestão da futura Indicação Geográfica.


Um grupo de controle também deverá ser criado para acompanhar a produção local e verificar se as peças identificadas com o selo atendem às especificações técnicas estabelecidas pela comunidade.


Segundo Marina Gatto, a iniciativa representa a continuidade de um trabalho desenvolvido pelo Sebrae ao longo dos últimos anos na Ilha do Ferro, envolvendo ações voltadas à gestão, formação de preços, participação em feiras, design, sustentabilidade e acesso a mercados.


Entre os projetos desenvolvidos está o Reflorir, que estimulou a construção de viveiros, o plantio de mudas e a conscientização sobre a compensação ambiental da madeira utilizada pelos artesãos.


Para Yang da Paz, a proteção do nome Ilha do Ferro é um dos maiores benefícios esperados com a conquista do reconhecimento.


“De vez em quando, os moradores vêm falar comigo que alguém que não mora aqui está usando o nome da Ilha do Ferro. A Indicação Geográfica vai nos ajudar a proteger o nome da comunidade e a arte que é produzida aqui”, conta.


Além da proteção, o artesão acredita que a certificação poderá ampliar a presença das peças produzidas no povoado em novos mercados, inclusive internacionais.


“A Ilha do Ferro é conhecida, mas eu viajo muito e ainda encontro pessoas que não conhecem o nosso trabalho. Acredito que a Indicação Geográfica vai nos ajudar a alcançar outros mercados e levar esse nome a lugares onde ele ainda não chegou”, afirma.


Segundo ele, os integrantes da associação também têm realizado um trabalho de conscientização junto aos moradores e artesãos, já que o processo ainda é novidade para parte da comunidade.


Após os últimos ajustes técnicos, a documentação deverá ser encaminhada ao INPI, que analisará se o pedido atende a todos os critérios necessários para a concessão do registro.


Caso seja aprovado, o reconhecimento abrirá uma nova etapa para os artesãos da Ilha do Ferro, voltada ao fortalecimento da marca coletiva, ao controle de qualidade e à ampliação dos mercados consumidores.


A proposta, no entanto, não tem como objetivo aumentar a produção em escala, mas fortalecer a autenticidade e a valorização do trabalho artesanal desenvolvido na comunidade.


“A intenção não é simplesmente aumentar a produção, mas melhorar a qualidade, a forma como os artesãos produzem e como vendem as suas peças”, conclui Marina.


Localizada às margens do Rio São Francisco, no município de Pão de Açúcar, a aproximadamente 235 quilômetros de Maceió, a Ilha do Ferro possui pouco mais de 450 habitantes e é considerada uma das maiores concentrações de artistas populares do país.


A comunidade transformou a madeira da caatinga, os bordados e a criatividade de seus moradores em um patrimônio cultural reconhecido nacionalmente.


O legado deixado por mestres como Seu Fernando, Mestre Aberaldo, Zé Crente e Roxinha permanece vivo nas novas gerações de artesãos, entre eles Yang da Paz, Vavan, Vandinho, Petrônio e Camille Souza, que seguem preservando as tradições locais e fazendo da Ilha do Ferro um verdadeiro ateliê a céu aberto.