Internacional
Como a tecnologia do cotidiano se tornou palco de disputa entre governos
Da inteligência artificial aos aplicativos bancários, passando por celulares, redes sociais e infraestrutura industrial, a digitalização transformou tecnologias antes vistas como ferramentas econômicas em ativos estratégicos de poder nacional. A busca por chips, minerais críticos, dados, nuvem e algoritmos tornou-se parte central da disputa geopolítica entre países.
Nesse contexto, ganha força a chamada Pax Silica, iniciativa dos Estados Unidos para proteger e priorizar suas próprias empresas — especialmente as big techs do Vale do Silício — na corrida tecnológica mundial. Essa estratégia, no entanto, extrapola o setor privado e envolve uma disputa global por minerais críticos e a imposição de sanções a países rivais. A análise é do doutorando em geografia Alexandre Perez, em entrevista à Sputnik Brasil.
"A Pax Silica, que os EUA estão levando à frente, está totalmente alinhada com sua política estatal, e o Vale do Silício tem um papel central em garantir a segurança de suprimento de toda essa cadeia produtiva. O Vale do Silício também desempenha papel importante ao restringir o acesso de rivais geopolíticos dos EUA a determinados produtos, matérias-primas e patentes", afirmou Perez.
O pesquisador destaca ainda que as sanções impostas por Washington podem gerar efeitos colaterais para o próprio país. Ao tentar isolar Pequim, os EUA acabam se privando do acesso a inovações desenvolvidas pela China, uma de suas principais concorrentes na arena global.
"Observamos, nos últimos 20 anos, que a China teve grande sucesso ao acessar tecnologias ocidentais e utilizá-las para criar suas próprias soluções. Todo esse bloqueio promovido pelos EUA pode sair pela culatra, permitindo que a China desenvolva tecnologias ainda mais sofisticadas do que aquelas produzidas pelos Estados Unidos e seus parceiros", comenta o analista.
Rússia e China despontam como alternativas à Pax Silica dos EUA
Outro ponto levantado por Perez é que Moscou e Pequim, apesar das sanções ocidentais, avançam na produção de tecnologia própria e se consolidam como alternativas para países do Sul Global em busca de soberania.
"Países que se posicionam de forma contra-hegemônica em relação aos EUA acabam sendo sancionados. Mesmo que China e Rússia não estejam totalmente alinhadas em tudo, conseguem convergir em questões como a promoção do multilateralismo, para evitar uma ordem internacional dominada apenas pelos Estados Unidos", destaca Perez.
O analista cita como exemplo a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês), criada pela China e que reúne diversos países, incluindo Brasil e Rússia, como membros fundadores.
"A China também lidera a WAICO, organização que prioriza o multilateralismo com outros atores políticos e econômicos ao redor do mundo, além do Ocidente e seus aliados estratégicos", observa.
Brasil ganha protagonismo na corrida tecnológica
O Brasil, também integrante da WAICO, ocupa espaço relevante na corrida tecnológica, especialmente com o sucesso do Pix. Como destaca Perez, o sistema brasileiro chegou a incomodar o governo de Donald Trump, sob a alegação de que a inovação prejudica empresas norte-americanas.
"Até o Brasil passa a ter papel cada vez mais central, por exemplo, entre os BRICS. E a questão estratégica dessas tecnologias volta à tona: Trump chegou a cogitar sanções ao Brasil devido ao Pix, que prejudicaria empresas dos Estados Unidos", conclui Perez.
Em um mundo multipolar, a tecnologia tornou-se fundamental para a soberania dos Estados nos âmbitos econômico, político e militar. As ferramentas presentes no cotidiano do cidadão comum também servem para rastrear comportamentos, tornando o controle desse novo fluxo tecnológico vital para proteção e projeção de poder no cenário internacional.
