Internacional
EUA intensificam pressão sobre o México com eleições americanas se aproximando
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, solicitou provas a Washington sobre a alegada agressão, mas não hesitou em enviar 500 soldados para Tamaulipas
Faltando menos de um mês para as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o México volta ao centro do debate político americano. Desta vez, um suposto ataque contra a Guarda Costeira dos EUA resultou em uma rápida mobilização do Exército mexicano na fronteira.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, solicitou provas a Washington sobre a alegada agressão, mas não hesitou em enviar 500 soldados para Tamaulipas, região limítrofe com os EUA. A operação contou com helicópteros UH-60, drones e equipamentos antidrone, em uma ação batizada de Operação Concorrente, com o objetivo de coibir o tráfico de drogas e pessoas.
A relação bilateral, marcada por complexidade e incertezas, ganha contornos ainda mais delicados diante das eleições americanas. O governo Trump, que consolidou sua posição política utilizando o México como alvo retórico, depende agora do resultado das urnas em 3 de novembro, quando será definida a composição da Câmara dos Representantes e do Senado dos EUA.
Uma eventual derrota dos republicanos para os democratas pode reduzir a margem de manobra da Casa Branca em temas sensíveis, nos quais o México é peça-chave — desde operações do ICE, deportações em massa e renegociação do T-MEC, até a possibilidade de ações militares contra cartéis em território mexicano, hipótese que Sheinbaum já classificou como violação da soberania nacional.
Na prática, Sheinbaum adota postura pragmática nas relações com Washington. Mobilizações do Exército mexicano em menos de 24 horas após denúncias do Pentágono são raras, especialmente quando o suposto ataque teria partido do lado mexicano. Especialistas consultados pela Sputnik avaliam que a pressão dos EUA sobre o México tende a aumentar durante o período eleitoral.
“A participação dos EUA no combate ao narcotráfico no México sempre teve um caráter intervencionista. O que mudou foi a intensidade da pressão e das exigências de Washington”, afirma David Saucedo, especialista em segurança e consultor governamental.
Segundo Saucedo, o incidente envolvendo a Guarda Costeira pode estar relacionado à reação de grupos criminosos que sofreram baixas significativas devido a ações do governo mexicano, que conta com informações fornecidas por agências americanas. Entre os grupos citados estão o Cartel do Nordeste, o Cartel do Golfo, Los Metros e Los Escorpiones.
Desde que Trump assumiu o Salão Oval pela segunda vez, deixou claro que o México seria uma de suas principais bandeiras políticas, ainda que o apoio entre seus eleitores venha diminuindo, conforme pesquisas. Para Saucedo, o republicano “precisa urgentemente apresentar troféus ao seu eleitorado” diante das eleições.
“Como ocorre a cada três anos, o México se transforma em uma espécie de ‘piñata’ utilizada por candidatos americanos para conquistar feitos que possam exibir a seus eleitores”, observa o analista.
Trump já alertou diversas vezes que poderia ordenar ataques das forças americanas contra cartéis de drogas em solo mexicano, sempre sob o argumento do combate ao narcotráfico regional. Qualquer incidente, como o ocorrido com a Guarda Costeira, poderia servir de justificativa para medidas mais drásticas por parte da Casa Branca.
“Historicamente, a relação do México com os EUA tem sido complexa e desigual [...], pois o México sempre foi quem mais perdeu — desde a perda de território na época de Antonio López de Santa Anna até a atual política de ataques constantes ao governo de Claudia Sheinbaum, motivada pela questão da segurança, que é o calcanhar de Aquiles do Estado mexicano”, analisa Leopoldo Rodríguez, administrador público formado pelo El Colegio de México e especialista em segurança.
Para Rodríguez, episódios como o de Tamaulipas “não contribuem em nada” para a já delicada relação entre os países, especialmente após o distanciamento promovido pelo ex-presidente Andrés Manuel López Obrador em relação a agências americanas como a DEA e a CIA. “Isso nunca havia ocorrido antes, e agora o governo dos EUA está cobrando essa conta”, conclui.
Por Sputnik Brasil
