Internacional
Do narcotráfico à soberania: como EUA e México usam a tensão em benefício próprio
O mais recente episódio de atrito ocorreu após o presidente dos EUA, Donald Trump, declarar na Assembleia Geral da ONU que o México seria o "epicentro da violência dos cartéis"
As relações entre Estados Unidos e México têm sido marcadas, nos últimos meses, por tensões em torno da segurança e da soberania nacional. A Casa Branca ameaça realizar operações unilaterais contra o narcotráfico em território mexicano, enquanto o governo do país latino-americano acusa Washington de hipocrisia.
O mais recente episódio de atrito ocorreu após o presidente dos EUA, Donald Trump, declarar na Assembleia Geral da ONU que o México seria o "epicentro da violência dos cartéis".
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, destacou que há cooperação bilateral no combate ao crime organizado e respondeu, de forma irônica, às críticas de Washington:
"Eu poderia dizer: 'É muito difícil viver ao lado de um país que tem um nível tão alto de consumo de drogas', ou poderia dizer: 'É muito difícil viver ao lado de um país que tem tanta produção de armas', mas não vou dizê-lo, porque temos boa relação com o presidente, também com o governo dos EUA", afirmou.
O segundo mandato de Trump tem sido marcado pela polarização. Suas declarações sobre o México reforçam sua posição política junto à base eleitoral mais conservadora, como explica Aldo Muñoz, doutor em ciência política e professor da Universidade Autônoma do Estado do México:
"Isso lhe rende muito dentro de seu público [...], o que se pode considerar o núcleo duro dos seguidores de Trump e que crê fervorosamente nesse discurso e requer que ele o alimente permanentemente", avaliou.
De acordo com o analista, a veracidade das declarações de Trump sobre o México torna-se secundária:
"Não importa o quão certo, ou falso, seja. Não importa que tenha provas, ou não, contra os políticos mexicanos. Isso é irrelevante. O relevante é que há um grupo importante de pessoas que precisa ouvi-lo e, por sua vez, que lhes dê elementos para poderem replicá-lo, e se tornam caixas de ressonância", explicou.
Irwing Rico, doutor em ciência política e professor da Universidade Nacional Autônoma do México, lembra que Trump chegou ao poder com a imagem de "homem forte". No entanto, segundo o especialista, essa imagem se desgastou e os republicanos enfrentam um cenário eleitoral complexo, com pesquisas locais apontando a popularidade de Trump em apenas 32%.
"É verdade que apontar constantemente o México e a América Latina em geral, mas particularmente o México como culpado pelos males em torno do narcotráfico e da segurança, sim, respondem a um discurso eleitoreiro, que o que busca é reconectar-se com uma população", analisou.
Apesar das ameaças, segundo o analista internacional, os EUA "estão longe de executar uma intervenção aberta em território mexicano", mas há décadas praticam ingerência velada no país vizinho.
Ao Governo do México, discurso fortalece legitimidade
Para o México, Aldo Muñoz aponta que a administração local conta hoje com três pilares que fortalecem sua posição política: programas sociais, comunicação eficiente e um discurso que exalta a soberania, defesa dos recursos naturais, do território e das fronteiras.
Esse último aspecto, segundo o analista, foi reforçado pelas declarações do presidente estadunidense, cuja imagem no México não é favorável.
"Porque ela fala de ingerência, e cada ataque do Governo Trump para ela se torna algo positivo. Inclusive, faz parecer mal a oposição [local], que avaliza posturas de um Governo estrangeiro", concluiu. "A forma como Trump faz declarações e como a presidente as expõe e responde a elas fez com que os mexicanos sintam que, efetivamente, Sheinbaum tem sido enérgica", complementou.
Por Sputnik Brasil
