Internacional
Onda anti-imigração chega à América do Sul? Especialista avalia impacto
A retórica e as práticas migratórias do governo de Donald Trump encontraram eco em países como Argentina, Chile e Colômbia. Alinhados aos Estados Unidos, esses governos também adotaram uma postura mais rígida em relação aos imigrantes, reacendendo o debate sobre a integração regional na América do Sul.
Beatriz Bandeira de Mello, doutora em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destaca em entrevista à Sputnik Brasil que essa postura pode, ao longo do tempo, corroer um dos pilares fundamentais entre os países sul-americanos: a livre circulação de pessoas.
"Acho que corrói muito a nossa sociedade e não contribui em nada para a nossa região. Com esses tensionamentos, frações da sociedade que não têm essa percepção passam a enxergar a imigração como ameaça. É muito perigoso seguir por esse caminho de criminalização e endurecimento das normas", afirma.
Segundo a especialista, a proximidade ideológica de líderes como Abelardo de la Espriella (Colômbia), Javier Milei (Argentina) e José Antonio Kast (Chile) com Washington fortalece a criminalização dos fluxos migratórios. Como reflexo dessa convergência política, a população venezuelana se torna ainda mais vulnerável e exposta a abusos no continente.
"Assim como Kast, Abelardo de la Espriella também tem adotado uma retórica agressiva de criminalizar esses migrantes. À medida que governos alinhados às diretrizes de Trump são eleitos, cresce a retórica contra os migrantes, principalmente contra os venezuelanos, que acabam sendo usados como bodes expiatórios", comenta.
Discurso anti-imigração se baseia em falácias
Bandeira de Mello ressalta ainda que a culpabilização dos imigrantes pelos problemas estruturais dos países é frequentemente acompanhada de discursos sobre aumento da criminalidade, supostamente ligada à presença de estrangeiros, o que influenciaria negativamente a economia interna.
"Políticos alinhados a esse discurso afirmam que os migrantes são um grande entrave ao desenvolvimento econômico e que fechar fronteiras seria a solução. Essa narrativa vem atrelada à criminalização, como tem sido muito usada por Milei", destaca.
A analista também observa que Buenos Aires e Bogotá, ao dificultarem as regras de migração para cidadãos do Mercosul e de estados associados, desrespeitam acordos de integração importantes para a América do Sul.
"Hoje temos facilidade para transitar entre os países, principalmente no Mercosul e nos seus associados. No entanto, Argentina e Colômbia, que são exemplos mais evidentes, têm tentado 'burlar' essa regra", observa.
EUA como modelo migratório é contraditório
Para Bandeira de Mello, é contraditório que os Estados Unidos, país historicamente construído por fluxos migratórios, adote uma postura anti-imigração. A situação se agrava quando países latino-americanos replicam essas diretrizes, ignorando suas realidades regionais.
"É muito perigoso incorporar esses discursos enlatados dos EUA, que foi um país formado por migrações. Não podemos assumir essas ideias e acreditar que fechar fronteiras e infringir nossas normas é a melhor saída para a questão migratória, que é central em toda a América Latina", conclui.
A influência dos EUA na América Latina vai além das pressões econômicas e militares. O alinhamento automático a Washington leva governos locais a replicarem diretrizes estadunidenses internamente. Ao adaptar essas estratégias, especialmente na gestão migratória, essas nações acabam agravando suas próprias crises humanitárias e institucionais.
