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Irã resiste a sanções dos EUA e consolida liderança regional, aponta analista

Por Sputnik Brasil 02/09/2026 09h09
Irã resiste a sanções dos EUA e consolida liderança regional, aponta analista
Foto: © AP Photo / Vahid Salemi

Após décadas de tentativas de isolamento por meio de severas sanções econômicas lideradas pelos Estados Unidos, a República Islâmica do Irã demonstra resiliência e capacidade de superação. No cenário atual, o país não apenas resiste às ofensivas norte-americanas, como também impõe desafios à máquina de guerra adversária, consolidando-se como potência e liderança regional.

Para compreender o contexto sociopolítico iraniano, a Sputnik Brasil entrevistou o analista político Marco Fernandes, especialista em estudos sobre o Irã e que esteve em Teerã antes do início do conflito em 28 de fevereiro, desencadeado por ações de Washington e Tel Aviv. Segundo Fernandes, o Irã evidenciou ao mundo sua capacidade bélica.

"O Irã é a Stalingrado da nossa época, a Stalingrado do Sul Global, porque essa guerra mudou o mundo e vai mudar não só a política regional, mas a geopolítica global. E o Irã, evidentemente, também, graças a essa guerra, pela primeira vez na história, fez algo que também se cogitava e que o Irã também não sabia se era capaz de fazer ou não, que foi o fechamento do estreito de Ormuz", afirmou o analista.

O pesquisador destaca ainda que o Irã, além de se consolidar como ator capaz de alterar a dinâmica local, expôs a fragilidade dos EUA diante de seus aliados no golfo Pérsico. Para Fernandes, os Estados Unidos demonstraram incapacidade de garantir proteção, mesmo mantendo extensas bases militares na região.

"Os países do golfo [Pérsico] passaram pelo menos 40 anos pagando bilhões de dólares aos EUA para garantir a sua segurança. Tanto com venda de equipamentos quanto com todas as suas bases. O que essa guerra provou é que os EUA não têm a capacidade e talvez nem o interesse de defender os países da região", comenta.

Economia estatal fortalece o país apesar de sanções

Fernandes, que está prestes a publicar o artigo "Como o Irã está vencendo a guerra que mudou o mundo? Estado planejador, jihad intelectual e xeque-mate geopolítico", explica que a participação direta do governo é um dos pilares para o desenvolvimento econômico do país.

"O Irã nunca deixou de ter plano quinquenal, então isso é uma coisa já cultural. O que aconteceu, em parte por conta das sanções, foi que cada vez mais o Estado iraniano assumiu uma série de setores importantes da economia. O Irã hoje, provavelmente, está na lista dos países do mundo onde o Estado tem mais influência e comando sobre a economia, mais até do que a China", destaca.

Outro ponto ressaltado pelo analista é que o Irã, em suas relações externas, construiu uma ponte diplomática que contorna o Ocidente, tendo Moscou e Pequim como parceiros estratégicos centrais.

"Entre 80% e 90% do petróleo iraniano vai para a China, com um ótimo desconto, aliás. O programa nuclear iraniano tem muito de cooperação com a Rússia. Há também toda uma questão logística [no Irã], que é estratégica hoje para a geopolítica e para o futuro econômico do Sul Global, que é a construção de rotas econômicas alternativas às rotas oceânicas controladas pelos Estados Unidos", observa.

Religião é a 'liga' da coesão entre Estado e sociedade

Além do pragmatismo nas políticas públicas, a religião islâmica exerce papel central na coesão social iraniana. Segundo Marco Fernandes, a fé é um pilar fundamental para que o povo iraniano supere adversidades, inclusive diante das atuais investidas dos Estados Unidos.

"Para o xiita, há dois caminhos possíveis diante da opressão, ou se luta e a justiça prevalece, ou se luta e é massacrado, mas, nos dois casos, se vira um mártir. Como é que se faz uma guerra com um povo que pensa que não há derrota? Esse país, essa sociedade, é praticamente indestrutível. Eu acho que é isso que nós estamos vendo no Irã nos últimos meses", conclui.

Compreender o Irã exige romper com visões simplistas do Ocidente, que frequentemente reduzem sua rica história a estereótipos. O atual cenário de conflito evidencia que as pressões e ataques de Washington falharam em desestabilizar o país. Pelo contrário, a agressão externa serviu como combustível para unificar a população, demonstrando forte coesão social e nacionalismo resiliente.