Internacional

Saída secreta de Trump da Turquia expõe tensão com o Irã

Operação de segurança levou presidente a trocar de aeronave e deixar o país discretamente após cúpula da Otan

Por Redação 12/08/2026 12h12
Saída secreta de Trump da Turquia expõe tensão com o Irã
Donald Trump deixou a Turquia em meio a uma operação de segurança - Foto: REUTERS

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou a Turquia de forma discreta após uma ameaça relacionada ao Irã, em uma operação de segurança que envolveu o uso de um caminhão de catering e a troca do avião que seria utilizado pelo chefe de Estado. O episódio, ocorrido após uma cúpula da Otan, voltou a levantar questionamentos sobre a condução da guerra entre Washington e Teerã.

O Serviço Secreto utilizou uma aeronave alternativa para retirar Trump da Turquia em julho. A operação foi realizada após uma avaliação de segurança que indicou riscos relacionados ao avião que vinha sendo preparado para transportar o presidente.

A revelação sobre a operação foi divulgada inicialmente pelo Washington Post e ganhou repercussão política nos Estados Unidos. O episódio também passou a ser associado às dificuldades enfrentadas pelo governo americano para sustentar a narrativa de que a guerra contra o Irã estaria próxima do fim.

A existência de uma ameaça contra o presidente, por si só, não significa que a estratégia militar americana tenha fracassado. No entanto, a retirada discreta de Trump alimentou questionamentos sobre a capacidade dos Estados Unidos de garantir a segurança do chefe de Estado durante uma viagem internacional.

Saída discreta contrasta com imagem pública de Trump


A operação chamou atenção porque Trump deixou o local utilizando um caminhão de catering antes de embarcar em uma aeronave alternativa. O procedimento ocorreu de maneira diferente da rotina adotada em viagens presidenciais.

A situação também ganhou destaque por contrastar com a imagem pública cultivada por Trump, que costuma apresentar uma postura de força diante de ameaças e adversários.

"Donald Trump odeia absolutamente qualquer coisa assim", disse Alyssa Farah Griffin, diretora de comunicações do presidente em seu primeiro mandato, ao apresentador Phil Mattingly da CNN no programa "The Lead", na terça-feira (11). "Ele odiava quando tinha que ir para o bunker por causa do ambiente de ameaças na Casa Branca… Ele queria voltar imediatamente para mostrar que não estava com medo, que não estava fugindo."

Griffin acrescentou: "Isso me diz que esta era uma ameaça muito real. Se ele está disposto a tomar essas medidas e a fazê-lo. Isso fala sobre o momento em que estamos no Oriente Médio."

A troca de aeronave também provocou novos questionamentos sobre a frota utilizada pelo presidente americano. Trump havia anteriormente desistido de viajar no novo jato vermelho, branco e azul doado pelo Qatar, aeronave que já havia sido alvo de críticas relacionadas aos sistemas de segurança.

O presidente e a Casa Branca negaram que uma ameaça tenha sido o motivo da utilização de uma aeronave reserva.

Troca de avião gera questionamentos


A operação levantou ainda dúvidas sobre a segurança das pessoas que permaneceram no avião que Trump aparentava ter escolhido para retornar aos Estados Unidos.

Na terça-feira (11), Trump foi questionado por jornalistas sobre o motivo pelo qual seria considerado perigoso para ele viajar em uma das aeronaves normalmente utilizadas como Air Force One, enquanto integrantes da imprensa poderiam permanecer no voo.

"O avião em que eu voei estava em maior risco … porque seria o avião, eu acho, que eles teriam mais probabilidade de atacar", disse o presidente.

A explicação, porém, não encerrou os questionamentos, já que Trump havia sido filmado embarcando no avião antes da troca não anunciada.

O governador de Illinois, JB Pritzker, um possível candidato presidencial democrata em 2028, criticou a operação.

Pritzker disse que Trump "colocou pessoas em perigo para se salvar, é isso que Donald Trump é".

Em seguida, relacionou o episódio à condução da guerra:

"Ele está disposto a colocar tropas em perigo… ele se esgueirou literalmente em um caminhão de catering enquanto os repórteres e sua própria equipe estavam em um avião que aparentemente estava sob ameaça".

As declarações colocaram o episódio no debate político americano e podem alimentar discussões sobre a condução da guerra durante o ciclo eleitoral de meio de mandato.

Guerra contra o Irã enfrenta novos questionamentos


A saída de Trump da Turquia ocorreu em um momento de crescente pressão sobre a narrativa do governo americano a respeito do conflito com o Irã.

Na segunda-feira (10), Trump voltou a afirmar que o Estreito de Ormuz estava "aberto agora". A hidrovia, porém, permanece no centro das tensões entre os dois países, enquanto as forças americanas continuam atuando na região.

O presidente também fez diversas previsões sobre a possibilidade de um acordo com o Irã, mas as negociações seguem sem uma solução definitiva.

Outro ponto de preocupação para Washington é o impacto da guerra sobre os estoques militares americanos. Segundo informações divulgadas pela CNN, os Estados Unidos utilizaram uma parcela significativa de seus mísseis durante o conflito, incluindo cerca de 80% dos interceptores de um importante sistema de defesa antimíssil.

Trump permanece sob ameaça de possíveis ataques


A segurança do presidente também é tratada com atenção devido ao histórico de conflitos entre Trump e o governo iraniano.

Durante seu primeiro mandato, Trump ordenou uma operação que matou o general iraniano Qasem Soleimani. Já no conflito atual, o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, foi morto em ataques aéreos realizados pelos Estados Unidos e Israel.

Durante o funeral de Khamenei, realizado em julho, manifestações contra Trump incluíram pedidos por sua morte. Também existem registros anteriores de operações contra opositores do governo iraniano em território turco.

"Acho totalmente plausível que possa haver uma ameaça séria ao presidente por parte de alguma entidade apoiada pelo Irã. Os EUA, o Reino Unido e vários estados europeus frustraram ou interromperam ataques apoiados pelo Irã ao longo dos últimos anos, francamente remontando a décadas", disse a tenente-general aposentada do Exército dos EUA Karen Gibson no programa "The Lead", na terça-feira. "Eles demonstraram intenção e capacidade de fazer isso."

Trump havia afirmado, em julho, que mil mísseis estavam "travados e carregados e apontados para a República Islâmica do Irã, com milhares de outros para seguir imediatamente" caso Teerã tentasse ou conseguisse assassiná-lo.

Uma eventual morte do presidente americano, entretanto, não significaria que as decisões militares tomadas por Trump seriam automaticamente mantidas. A sucessão presidencial levaria o vice-presidente JD Vance ao comando do governo, caso fosse necessário.

Apesar da gravidade potencial da ameaça, Trump não apresentou uma reação pública de grande intensidade ao episódio ocorrido na Turquia.

A operação do Serviço Secreto pode ter evitado um possível ataque contra o presidente e reduzido os riscos durante a viagem. Ao mesmo tempo, a retirada discreta abriu uma nova frente de críticas à condução do conflito e à capacidade do governo americano de sustentar sua avaliação de que a guerra tornou o mundo mais seguro.