Geral

Nutróloga explica como alimentação e estilo de vida se relacionam com a saúde mental

Estudo com quase 16 mil brasileiros associa maior consumo de ultraprocessados ao risco de sintomas depressivos e amplia discussão durante o Setembro Amarelo

Por Assessoria 08/09/2026 11h11
Nutróloga explica como alimentação e estilo de vida se relacionam com a saúde mental
Nutróloga explica como alimentação e estilo de vida se relacionam com a saúde mental - Foto: Assessoria

O que colocamos no prato pode ter relação também com a saúde mental. Um estudo realizado com 15.960 adultos brasileiros identificou que, a cada aumento de 10% na participação dos alimentos ultraprocessados na dieta, houve associação com um risco 10% maior de desenvolvimento de sintomas depressivos.

O dado ganha relevância durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio, ao ampliar a discussão sobre fatores do estilo de vida que também fazem parte do cuidado com a saúde.

A pesquisa, intitulada Adherence to the ultra-processed dietary pattern and risk of depressive outcomes: Findings from the NutriNet Brasil cohort study and an updated systematic review and meta-analysis, foi publicada em 2024 na revista científica Clinical Nutrition. O trabalho utilizou dados da coorte NutriNet Brasil e analisou adultos que, no início do acompanhamento, não apresentavam depressão ou sintomas depressivos.

Os participantes foram acompanhados, em média, durante 18,3 meses. Ao longo do período, foram identificados 2.373 novos casos de sintomas depressivos. Além da associação observada a cada aumento de 10% na participação dos ultraprocessados na alimentação, os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática e metanálise de seis estudos prospectivos. Nessa análise, pessoas com maior exposição aos ultraprocessados apresentaram risco 32% maior de desfechos depressivos em comparação com aquelas de menor exposição.

Os resultados não significam, porém, que determinado alimento seja capaz de causar depressão de forma isolada. Para a médica nutróloga Eline Soriano, esse é um cuidado importante na interpretação dos dados.

“Depressão é uma condição multifatorial. Não podemos dizer que uma pessoa desenvolveu depressão porque consome ultraprocessados, assim como não podemos afirmar que mudar a alimentação vai tratar, sozinha, um transtorno depressivo. O que estudos como esse mostram é que alimentação, saúde metabólica e saúde mental não devem ser vistas como áreas completamente separadas”, explica.

A possível relação entre padrão alimentar e saúde mental envolve diferentes mecanismos. Dietas com grande participação de ultraprocessados costumam apresentar, de maneira geral, menor densidade nutricional e maior presença de açúcares adicionados, gorduras de baixa qualidade, sódio e aditivos, ao mesmo tempo em que podem substituir alimentos in natura ou minimamente processados importantes para uma alimentação equilibrada.

Segundo Eline Soriano, o funcionamento cerebral depende de uma combinação de fatores que vai muito além das calorias consumidas. “O cérebro precisa de nutrientes para desempenhar suas funções adequadamente. Proteínas, vitaminas, minerais e ácidos graxos participam de diversos processos do organismo. Quando avaliamos um paciente, não olhamos apenas para peso ou composição corporal. Qualidade da alimentação, sono, atividade física e saúde metabólica também precisam entrar nessa análise”, afirma.

Outro ponto investigado pela ciência é a comunicação entre intestino e cérebro. A microbiota intestinal participa de processos metabólicos, imunológicos e inflamatórios, o que tem levado pesquisadores a estudar cada vez mais o chamado eixo intestino-cérebro. Isso não significa, entretanto, que exista uma dieta específica capaz de prevenir ou tratar isoladamente a depressão.

A inflamação crônica de baixo grau também aparece entre os possíveis caminhos biológicos estudados. Alterações metabólicas, excesso de gordura corporal, sedentarismo, sono inadequado e determinados padrões alimentares podem estar relacionados a processos inflamatórios no organismo.

NUTRIÇÃO - Cansaço persistente, indisposição e dificuldade de concentração são sintomas inespecíficos e podem ter diferentes causas.

Em alguns pacientes, alterações nutricionais ou metabólicas também podem contribuir para esse quadro, razão pela qual a avaliação individualizada é importante. “Existem deficiências de vitaminas e minerais que podem repercutir em energia, disposição e funcionamento do organismo, mas suplementar sem identificar uma necessidade não é a resposta. Primeiro precisamos entender o paciente, investigar possíveis deficiências e, quando houver indicação, fazer a correção adequada”, explica a nutróloga.

A especialista ressalta ainda que hábitos saudáveis funcionam de forma integrada. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e sono adequado contribuem para a saúde global, mas não devem ser apresentados como substitutos de tratamento psicológico ou psiquiátrico quando ele é necessário.

“A mensagem do Setembro Amarelo precisa ser responsável. Cuidar da alimentação, dormir melhor e praticar atividade física são medidas importantes para a saúde, inclusive para o bem-estar, mas uma pessoa com sintomas de depressão precisa de avaliação adequada. O cuidado pode envolver diferentes profissionais, e a nutrologia entra como uma das áreas que podem contribuir dentro dessa abordagem multidisciplinar”, conclui Eline Soriano.