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Idosos retomam estudos e transformam trajetórias em Maceió

Alunos da Ejai superam barreiras, retomam a educação após os 70 anos e encontram autonomia, convivência e novas perspectivas

Por Redação* 04/05/2026 08h08
Idosos retomam estudos e transformam trajetórias em Maceió
Maria José, de 77 anos, retomou os estudos e hoje ajuda colegas em sala - Foto: Mariel Matias/ Ascom Semed

Histórias de recomeço e persistência marcam a rotina de estudantes da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (Ejai) em Maceió. Mesmo diante de limitações impostas ao longo da vida, João Correia Aciole, de 79 anos, e Maria José Agra Nobre, de 77, decidiram voltar à sala de aula e redescobriram, por meio da educação, novas possibilidades.

Aluno da Escola Municipal João Sampaio, João carrega no olhar o significado de uma conquista tardia: aprender a ler e escrever pela primeira vez. Criado na zona rural, ele nunca teve acesso ao ensino formal e passou a infância ajudando a família no campo. “Naquele tempo, se tinha escola, eu não me lembro. Meus pais nunca se interessaram em me colocar na escola”, recorda.

A trajetória seguiu entre trabalho, casamento e filhos, enquanto o sonho de estudar foi sendo deixado de lado. A mudança ocorreu após a morte da esposa, quando, incentivado por um vizinho, decidiu enfrentar o receio da idade e iniciar os estudos. “Eu dizia que não ia mais não, por causa da minha idade. Mas ele insistiu: ‘não tem idade para aprender’”, conta.

Desde que ingressou na Ejai, em 2024, João destaca avanços que considera significativos. Hoje, já consegue assinar o próprio nome, ler palavras e se locomover com mais independência pela cidade. “A educação mudou a minha vida. Eu não sabia nada e hoje já sei muitas coisas”, afirma.

Para ele, a escola também representa acolhimento e convivência. “Sinto muito feliz na minha vida e estar com meus professores e amigos de escola é muito bom. Nunca pensei em desistir. Eu quero avançar ainda mais nos meus estudos. Só que eu não vou estudar para ser um médico, para ser um advogado, porque a minha idade não dá mais. Mas eu vou continuar estudando até eu me formar”, frisa.

João resume o significado da experiência: “É sinônimo de alegria e amizade. Para mim, é um dos maiores prazeres que eu já tive. Nunca tive a oportunidade de sentar em uma sala de aula com uma professora para me ensinar, pegar um livro e conseguir ler. Hoje, esse momento é de pura felicidade".

Assim como ele, Maria José Agra Nobre também encontrou na educação um novo propósito. Estudante da mesma unidade, decidiu retomar os estudos ao perceber que queria ir além da rotina doméstica. “Chega a noite e eu vou perder meu tempo assistindo novela? Novela não acrescenta em nada. Eu disse: vou estudar”, relembra.

Com o apoio da família, especialmente da filha professora, iniciou sua jornada em 2023. Apesar de já ter tido contato com a escola na infância, em áreas rurais, buscava aprimorar o aprendizado. Hoje, celebra o progresso na leitura. “Eu já sabia ler, mas gaguejava. Agora, já estou lendo melhor, mais correta. Isso, para mim, é uma grande conquista”, afirma.

Em sala, Maria também contribui com o aprendizado dos colegas. “Ainda hoje, se eu estou na sala, se alguém não sabe aquele conteúdo, eu não guardo só para mim. Se eu puder ensinar, eu ensino. Eu quero que ele aprenda também”, ressalta.

Para ela, o estudo vai além da formação técnica. “Estudar é evolução”, resume. E completa: “A pessoa que envelhece e perde o tempo só frente a televisão, ou dormindo e comendo e só engordando, sem fazer exercício, sem procurar evoluir, está perdendo tempo. Uma pessoa da minha família disse assim pra mim: 'eu, deixei de estudar porque eu pensei que para estudar era só para trabalhar'. Mas agora aprendi que estudar é evolução ".

As experiências dos dois estudantes evidenciam o impacto da educação em qualquer fase da vida. Mais do que aprendizado formal, a escola se torna um espaço de troca, autoestima e pertencimento. “A gente faz amizade, troca ideias, aprende com o outro. Isso é maravilhoso”, diz Maria.

João também ressalta a diferença na rotina. “Em casa, a pessoa não aprende nada, só come e dorme e fala da vida dos outros. A vida na escola é muito mais alegre", enfatiza.

Atualmente, a rede municipal de Maceió conta com 40 unidades que oferecem a modalidade. A Escola Massa, localizada no Residencial Novo Jardim, no bairro Cidade Universitária, está com matrículas abertas para pessoas a partir de 16 anos que não concluíram os estudos na idade regular.

As inscrições são feitas presencialmente, nos turnos da manhã, tarde e noite, mediante apresentação de documento de identificação, CPF e comprovante de residência. Não é exigido histórico escolar.

Além do acesso à educação básica, a Ejai também amplia oportunidades de qualificação profissional. Em parceria com o Senai, são ofertados cursos de iniciação profissional, contribuindo para a autonomia e inserção dos estudantes no mercado de trabalho.

*Com informações da Ascom Semed