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Servidora relata inclusão no serviço público e vivência com autismo
Terapeuta ocupacional compartilha trajetória como mulher autista, mãe de filhos com TEA e destaca acolhimento na Secria
Antes de qualquer cargo, Katiuscia Viana é atravessada pelas experiências que a constituem. No dia 2 de abril, quando é celebrado o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, sua história ganha ainda mais relevância. Terapeuta ocupacional, servidora da Secretaria da Primeira Infância de Alagoas (Secria) e da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), mãe de dois filhos com Transtorno do Espectro Autista e mulher autista, ela constrói sua trajetória entre o cuidado, o trabalho e as vivências do cotidiano.
Natural de Arapiraca, Katiuscia, de 49 anos, foi a primeira terapeuta ocupacional formada em Alagoas. Desde o início da carreira, optou por atuar com crianças, especialmente nas áreas de neonatologia, neuropediatria e saúde mental infantojuvenil. Com o passar dos anos, a experiência profissional passou a dialogar diretamente com a vida pessoal.

Quando o cuidado também é dentro de casa
A maternidade redefiniu o percurso de Katiuscia. Mãe de Davi, de 18 anos, e Daniel, de 17, ela lida diariamente com diferentes necessidades de cuidado e acompanhamento.
Davi é um adulto autista, com nível de suporte 3, não verbal, e também apresenta epilepsia e outras comorbidades. Já Daniel é um adolescente com autismo, nível de suporte 1. As diferentes formas de expressão e demandas exigem reorganização constante da rotina, além da busca por conhecimento e estratégias específicas.
Mãe solo desde os sete meses de vida do filho mais novo, sem rede de apoio no início, ela precisou conciliar trabalho, deslocamentos e uma rotina intensa de cuidados.
Também enfrentou dificuldades para garantir o acesso à educação inclusiva, inclusive na rede privada, passando por diferentes escolas até encontrar espaços mais adequados. “Eu precisei aprender no caminho, buscar formação fora, estudar, adaptar, testar estratégias. Porque não existia, naquele momento dos primeiros anos de diagnóstico, o suporte que meus filhos precisavam”, relata.
Após o 5º ano do ensino fundamental, foi necessário buscar outra instituição, já que a escola anterior não oferecia continuidade. Segundo ela, ainda há falta de preparo para atender pessoas com TEA, o que impacta diretamente o processo de inclusão.
“Existe uma dificuldade muito grande das instituições em entender que cada pessoa no espectro tem necessidades diferentes. E isso impacta diretamente no processo de inclusão”, completa.
O diagnóstico que traz respostas
Anos depois, a própria Katiuscia recebeu o diagnóstico de autismo, nível de suporte 1. O processo envolveu negação, medo e dúvidas, mas também promoveu autoconhecimento.
Ela relata que, ao longo da vida, tentou se adaptar a padrões sociais para ser aceita, mesmo em situações desconfortáveis. O diagnóstico trouxe respostas sobre sua forma de perceber o mundo. “Eu comecei a entender várias coisas em mim, que antes eu não compreendia, e me sentia culpada por pensar e agir diferente”, afirma.
Ao tornar público o diagnóstico, enfrentou comentários capacitistas, mas também encontrou acolhimento em pessoas próximas e em ambientes mais inclusivos.
Adoecimento e ressignificação
A trajetória também foi marcada por um período recente de adoecimento. Após um quadro de burnout, Katiuscia teve a imunidade comprometida e, depois de contrair dengue que evoluiu para encefalite, desenvolveu a Síndrome de Guillain-Barré.
“Foi um período muito difícil da minha vida. Eu não conseguia nem levantar para beber água. Ia ao hospital quase diariamente e tinha certeza de não sair com vida. Só pensava em quem cuidaria dos meus filhos”, conta.
Durante esse período, enfrentou limitações motoras e chegou a depender do filho mais novo e do pai para atividades básicas. Ela também relata demora para o diagnóstico correto. “Diziam que era psicológico, que era estresse. Só um ano depois um médico fechou o diagnóstico”, afirma.
O processo de recuperação contou com tratamento de medicina integrativa e resultou em mudanças profundas, como a redefinição de prioridades e maior cuidado com a saúde.
Ambiente de trabalho acolhedor
A chegada à Secria representa um novo momento na trajetória. Katiuscia destaca que encontrou um ambiente de respeito e inclusão. “Não há julgamentos nem capacitismo. Há compreensão, apoio, incentivo e oportunidades para desenvolvimento do meu potencial técnico. Eu me sinto vista além do diagnóstico”, afirma.
Segundo ela, suas necessidades são respeitadas sem constrangimento. “Se eu preciso usar fone de ouvido, me afastar ou não almoçar com os colegas em um dia de sobrecarga sensorial, isso é respeitado. Eu não sou retaliada por isso”, relata.
Katiuscia também ressalta o cuidado nas relações e na comunicação no ambiente institucional, o que contribui para sua segurança e bem-estar. Para ela, o acolhimento é contínuo e impacta diretamente sua qualidade de vida e desempenho profissional.
“O trabalho na Secria não é motivo de desregulação sensorial ou sobrecarga psicológica, mas de motivação, de saber que sou capaz e que terei suporte”, conclui.
*Com informações da Ascom Cria


