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VÍDEO: pela primeira vez, miado de onça-pintada é registrado em vida livre

Estudo no Parque Nacional do Iguaçu (PR) revela que mães usam som específico para se comunicar com filhotes e evitar atrair machos

Por Redação* 10/02/2026 11h11
VÍDEO: pela primeira vez, miado de onça-pintada é registrado em vida livre
Onças-pintadas são gravadas ‘miando’ na natureza 1ª vez - Foto: Reproduçãp / Projeto Onças do Iguaçu

Conhecida pelo esturro potente que pode ser ouvido a quilômetros de distância, a onça-pintada (Panthera onca), maior felino das Américas, acaba de revelar um comportamento inédito na natureza. Pela primeira vez, cientistas registraram o som de um miado emitido por uma onça em vida livre — uma vocalização até então observada apenas em cativeiro.

O registro foi feito no Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, e descrito em um artigo publicado recentemente na revista científica Behaviour. As imagens e os áudios são resultado de uma parceria entre pesquisadores da Universidade de Salford, no Reino Unido, do Projeto Onças do Iguaçu, da Atlantic Technological University e do WWF-Brasil.


Até então, era sabido que as onças utilizam o esturro principalmente para demarcar território e atrair parceiros. O miado, no entanto, jamais havia sido documentado em ambiente natural. O flagrante, obtido por meio de armadilhas fotográficas (camera traps), permitiu a observação de um comportamento materno inédito em condições selvagens.

Segundo a bióloga Vania Foster, responsável técnica de pesquisa do Projeto Onças do Iguaçu, o miado desempenha um papel essencial na sobrevivência e na comunicação entre mãe e filhotes.

“O miado é uma importante forma de comunicação entre a fêmea e seus filhotes, sendo utilizado, por exemplo, para localizá-los quando a fêmea se afasta para caçar e retorna à toca. Como os filhotes ainda não possuem a estrutura laríngea completamente desenvolvida, eles não são capazes de esturrar, que é a vocalização típica dos adultos. Assim, a fêmea modula sua vocalização para um miado, adaptando-se à capacidade vocal dos filhotes, como uma forma de ‘falar a mesma linguagem’ e facilitar a comunicação”, explica.

Estratégia contra o infanticídio


Além da limitação física dos filhotes, a adoção de sons mais baixos também está relacionada à segurança. O esturro poderia atrair machos adultos para o local, o que representa um risco elevado para as crias.

Machos de onça-pintada costumam matar filhotes de outros pais para induzir a fêmea ao cio novamente, aumentando as chances de reprodução. Esse risco de infanticídio ajuda a explicar a evolução de uma comunicação mais discreta: a fêmea precisa se comunicar com os filhotes sem denunciar sua localização a possíveis ameaças.

Complexidade sonora


Os vídeos e áudios registrados no Paraná foram analisados pela bioacusticista Marina Duarte, da Universidade de Salford. Segundo ela, a comunicação entre mãe e filhote revelou um nível de complexidade surpreendente.

“Fiquei surpresa ao observar que cada miado era composto por formações acústicas distintas, ou seja, diferentes entre si. Isso demonstra o quão vasto é o repertório vocal desses felinos e o quanto ainda sabemos pouco sobre ele”, afirma.

Semelhança com humanos


O estudo também identificou um paralelo curioso com o comportamento humano. A forma como a onça modula a voz para se comunicar com os filhotes lembra o chamado baby talk — a fala mais suave e aguda utilizada por adultos ao se dirigirem a bebês.

Nos humanos, essa estratégia ajuda a captar a atenção da criança e reduzir o estresse. Embora os objetivos biológicos sejam diferentes, a semelhança acústica chama a atenção dos pesquisadores.

Para Vania Foster, a descoberta evidencia o quanto ainda há a ser aprendido sobre a biodiversidade brasileira.

“É surpreendente que uma das espécies de felinos mais estudadas do mundo ainda revele tantas peculiaridades comportamentais, especialmente no que diz respeito ao comportamento materno”, conclui.

*Com informações do G1