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Alagoas registra mais de mil casos de leishmaniose e reforça alerta para diagnóstico precoce
Data mundial dedicada às doenças tropicais negligenciadas chama atenção para formas da enfermidade, riscos e importância da prevenção
No Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas, celebrado em 31 de janeiro, a atenção se volta para a leishmaniose, doença ainda presente em todas as regiões do Brasil e considerada um desafio relevante de saúde pública em estados de clima quente e úmido, como Alagoas. Quando não é diagnosticada e tratada precocemente, a enfermidade pode evoluir para quadros graves e até levar à morte, especialmente na forma visceral.
Transmitida pela picada da fêmea do mosquito-palha (flebotomíneo), a doença se apresenta principalmente em duas formas. A leishmaniose tegumentar provoca lesões na pele e, em casos mais graves, pode atingir mucosas. Já a forma visceral, também chamada de calazar, compromete órgãos internos como fígado, baço, gânglios linfáticos e medula óssea. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quando não tratada, essa forma pode levar à morte em até 90% dos casos.
Entre 2014 e 2023, Alagoas registrou 517 casos confirmados de leishmaniose visceral, conforme dados do DATASUS. Desse total, 69,4% dos pacientes evoluíram para cura, enquanto 8,9% morreram em decorrência da doença. Os registros apontam maior concentração de casos nos anos de 2018 e 2019, seguida por redução gradual a partir de 2020, com menor número de notificações em 2023.
No mesmo período, o estado contabilizou ainda 584 casos de leishmaniose tegumentar, também segundo o DATASUS. Embora não haja registro de mortes nessa forma da doença, ocorreram situações de abandono do tratamento e evolução para quadros mais graves. Mesmo com menor letalidade, a enfermidade pode deixar sequelas importantes quando não diagnosticada precocemente, incluindo destruição de mucosas do nariz, boca e garganta.
De acordo com a infectologista Raquel Guimarães, da Unimed Maceió, identificar a doença rapidamente é essencial para evitar complicações. “A leishmaniose é uma doença negligenciada, diretamente relacionada a fatores ambientais como desmatamento e urbanização desordenada. A integração entre avaliação clínica, epidemiológica e exames laboratoriais é fundamental para confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento antes que ocorram complicações graves”, explica.
A médica destaca que os pacientes têm acesso a diferentes métodos diagnósticos, como testes rápidos, exames parasitológicos diretos — considerados padrão-ouro — e exames sorológicos e moleculares, como o PCR. O tratamento, por sua vez, exige acompanhamento médico rigoroso devido à toxicidade das medicações e à necessidade de monitoramento constante.
Sem vacina disponível para humanos, a prevenção depende principalmente do controle do vetor e de cuidados ambientais e individuais, como uso de repelentes, instalação de telas de proteção e manejo adequado do ambiente domiciliar. A atenção aos primeiros sinais da doença e a vigilância em saúde também são apontadas como medidas essenciais.
Expansão da doença e sinais de alerta
A infectologista Raquel Guimarães explica que, desde a década de 1980, o Brasil registra crescimento significativo no número de casos. Antes mais associada a áreas rurais e ao contato com animais silvestres, a doença também passou a atingir regiões urbanas. “Esse processo está diretamente relacionado à presença do cão doméstico, que é considerado o reservatório epidemiologicamente mais importante da leishmaniose visceral americana”, esclarece.
Entre os sinais que exigem atenção na leishmaniose tegumentar estão feridas persistentes que não cicatrizam, surgimento de novas lesões e sintomas como dor, sangramentos ou feridas no interior do nariz, boca e garganta. “Rouquidão ou dor ao engolir também merecem investigação, pois podem indicar comprometimento de estruturas mais profundas”, orienta.
Já na forma visceral, considerada a mais grave, os sintomas tendem a ser progressivos e sistêmicos. Febre prolongada, perda intensa de peso, fraqueza, aumento do fígado e do baço — percebido por inchaço abdominal —, além de anemia e sangramentos, como pelo nariz ou gengivas, podem ocorrer. “Esses sinais indicam uma doença potencialmente fatal, que exige diagnóstico e tratamento imediatos para evitar desfechos graves”, reforça a infectologista.
*Com informações da Assessoria


