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Lei de Gaga: alagoana relata como é conviver com fibromialgia e comemora nova legislação

Projeto de Lei que entra em vigor em janeiro recebe nome em homenagem à cantora norte-americana

Por Ana Beatriz Elias* 10/01/2026 07h07 - Atualizado em 10/01/2026 12h12
Lei de Gaga: alagoana relata como é conviver com fibromialgia e comemora nova legislação
Lilás Montaldo tem 41 anos e desde a infância lida com a fibromialgia - Foto: Arquivo pessoal

O tratamento para fibromialgia no Brasil ganhou mais um avanço em 2026. A condição passa a ser reconhecida como deficiência este mês, graças à Lei nº 15.176/2025, ou “Lei de Gaga”, em homenagem à cantora que tornou a doença conhecida mundialmente, sancionada pelo presidente Lula. 

A medida marca um avanço importante no reconhecimento dos impactos da fibromialgia no cotidiano de seus portadores. A condição é responsável por causar dor crônica e não tem uma origem específica, o que dificulta seu combate. 

A nova legislação, porém, garante o acesso de portadores de fibromialgia a direitos importantes para a qualidade de vida, como benefícios previdenciários e assistenciais, políticas de cotas e isenções fiscais para aqueles que se enquadrarem nas condições previstas pela lei, que considerará a apresentação de laudo médico e levará em conta aspectos biológicos, psicológicos e sociais do portador. 

Também será necessária a comprovação de que a doença compromete atividades do dia a dia de forma significativa, como trabalho, mobilidade ou autocuidado. 

A Lei recebe esse nome em homenagem à cantora Lady Gaga, responsável por tornar a doença conhecida ao falar sobre a sua experiência enquanto portadora no documentário “Gaga: Five Foot Two”, lançado em 2017 pelo serviço de streaming Netflix. Gaga se tornou um símbolo global na luta contra a dor crônica. 

“É difícil, mas é libertador falar sobre isso. Eu espero que as pessoas que lutam contra uma dor crônica saibam que não estão sozinhas. Eu sofro como eles e supero, e isso pode ser feito”, declarou a cantora em entrevista sobre o filme.


Diagnosticada

Lilás Coentro Montaldo é professora e lida com a fibromialgia desde os 11 anos de idade. Hoje, com 41 anos, a alagoana conta como foi difícil a trajetória até a chegada do diagnóstico, que só veio no início da fase adulta, incluindo ser constantemente questionada se suas dores eram verdadeiras. 

“Convivi com dores que não conseguia explicar desde os 11 anos. Enxaquecas, cólicas fortíssimas, estados depressivos, dores constantes nos pulsos, cotovelos, ombros e costas. Todas elas justificadas como dores de crescimento, psicológico, ‘vc está somatizando’, ‘isso é coisa da sua cabeça’. De fato, tive uma infância/adolescência difícil e uma sensação de alerta constante. Mas minhas dores sempre foram reais”, contou ao Jornal de Alagoas. 

Nem mesmo um segundo diagnóstico de doença autoimune foi o suficiente para explicar o motivo dos sintomas de Lilás. Foi quando uma amiga de infância e terapeuta ocupacional sugeriu a fibromialgia. 

“Eu não sabia por onde começar, haviam poucos médicos capacitados e quando eu mencionava, era descredibilizada. A vida continuou acontecendo e eu segui adiando. Alguns anos atrás, veio o diagnóstico de Tireoidite de Hashimoto — uma doença auto imune na tireoide. Mas nada ainda justificava as dores, até chegar em 3 médicos com especialidades diferentes que mencionaram a mesma coisa: fibromialgia. Finalmente fui para um reumatologista e já nas primeiras consultas, fui medicada e diagnosticada”, relatou.

‘Você consegue imaginar o que é sentir dor o tempo todo?’

A professora também disse que as dificuldades trazidas pela pandemia do Covid-19, como insônia, ansiedade e irritabilidade, potencializaram os sintomas. 

“Eu já não conseguia ir trabalhar direito, a rigidez muscular e a falta de sono restaurador dificultavam muito o levantar e o pensar. Você consegue imaginar o que é sentir dor o tempo todo? Então, vinha a crise de ansiedade e, no meio do dia, lá estava eu novamente na emergência, em prantos, sem saber explicar onde começava e terminava a minha dor. Foram cerca de 5 meses desta forma”. 

Conviver em um estado de dor permanente fez com que Lilás perdesse a identidade. Ela já não participava mais de eventos sociais por não se sentir compreendida. Ter uma rede de apoio na esposa e filha foi fundamental para que ela conseguisse conviver com as limitações trazidas pela fibromialgia. 

“Minha esposa e filha foram fundamentais nesse processo. Enquanto uma passou a suportar todo o peso financeiro da casa para que eu reduzisse minha carga horária no trabalho, a outra passou a fazer quase tudo dentro de casa para que eu descansasse e fosse atrás de tratamento. Então, o diagnóstico me veio como um alívio, um peso tirado de minhas costas, não com uma cura, mas um tratamento. Finalmente, posso dizer que não sou louca”, disse. 

Toda a trajetória de Lilás a fez reconhecer a importância da Lei de Gaga para a própria vida e para quem ainda não identificou a doença. 

“A Lei de Gaga veio como um chute de realidade e visibilidade para a sociedade, e se faz necessário falar abertamente para que outras pessoas tenham também conhecimento e que sejam mais empáticas com seus pares. Por outro lado, fez mexer com todo o sistema de saúde, concedendo espaço e reconhecimento a nível federal, porque nós existimos e nossas dores são reais”, concluiu.

*Estagiária sob supervisão