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Carlos Marighella: a trajetória do guerrilheiro que combateu a ditadura

Da militância baiana à execução em São Paulo, conheça um pouco da vida, a obra, a produção literária e o legado de uma das maiores lideranças da resistência armada no Brasil.

Por Nichollas Judson 05/11/2026 11h11
Carlos Marighella: a trajetória do guerrilheiro que combateu a ditadura
Carlos Marighella: a trajetória do guerrilheiro que combateu a ditadura - Foto: Reprodução/Comissão da Verdade do Estado de São Paulo

Nascido em Salvador, em 5 de dezembro de 1911, na histórica região da Baixa dos Sapateiros, Carlos Marighella construiu uma das trajetórias mais marcantes da história política brasileira. Cresceu em um ambiente de forte resistência cultural e social, moldado decisivamente pela herança de seus pais.

Seu pai, Augusto Marighella, era um operário imigrante italiano, militante de convicções anticlericais e antimilitaristas que lhe transmitiu a consciência de classe e a ética do trabalho. Sua mãe, Maria Rita do Nascimento, era uma mulher negra baiana, filha de africanos escravizados de origem haussá, povo muçulmano que protagonizou a célebre Revolta dos Malês, ocorrida na Bahia no século XIX.

Dessa combinação entre o operariado urbano europeu e a tradição de resistência negra africana, o jovem baiano extraiu a base de sua formação política, o gosto pela poesia e a disposição permanente para a contestação social.

Origens, veia poética e primeiras prisões na Bahia


Aos 18 anos, ingressou na Escola Politécnica da Bahia para cursar Engenharia Civil, período em que intensificou sua militância política e filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Paralelamente aos estudos e à atividade política, revelou sua vocação literária. Dotado de talento para a poesia, utilizava os versos como instrumento de sátira e crítica social. Foi justamente por essa produção contestadora que sofreu sua primeira prisão, em 1932, após escrever um poema satírico contra o então interventor da Bahia, Juracy Magalhães.

Pouco depois, abandonou a faculdade e transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu responsabilidades no setor de imprensa e propaganda do Comitê Central do PCB. Ao longo da vida, inclusive durante os períodos de clandestinidade, manteve intensa atividade literária, publicando poemas e cultivando relações com intelectuais e artistas de sua época.

Perseguição no Estado Novo e mandato parlamentar


Durante o Estado Novo, Marighella foi alvo de perseguições sistemáticas. Preso em maio de 1936, foi submetido a severas sessões de tortura nas dependências da polícia política. Libertado em 1937, voltou à clandestinidade em São Paulo, mas acabou novamente detido em 1939.

Permaneceu encarcerado durante seis anos, cumprindo parte da pena na Ilha de Fernando de Noronha. Obteve a liberdade apenas em 1945, com a anistia que marcou o fim do Estado Novo.

Com a redemocratização, sua liderança ganhou projeção nacional, resultando em sua eleição para deputado federal pela Bahia na Assembleia Nacional Constituinte de 1946. Durante o mandato, atuou em defesa dos direitos trabalhistas e da legalidade partidária.

Essa experiência institucional, porém, durou pouco. Em 1948, o registro do PCB foi cancelado e os mandatos de seus parlamentares foram cassados, lançando Marighella novamente à clandestinidade.

Rompimento com o PCB e fundação da ALN


Nos anos seguintes, integrou a Comissão Executiva do partido e viajou à China em 1953, onde estudou a experiência da Revolução Chinesa. A partir de 1962, divergências ideológicas passaram a afastá-lo da linha oficial do PCB.

Logo após o golpe militar de 1964, foi baleado no peito por agentes policiais dentro de um cinema no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. Meses depois, foi libertado por meio de habeas corpus obtido pelo jurista Sobral Pinto.

O rompimento definitivo com a direção tradicional da esquerda ocorreu após sua participação na I Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), em Havana. Expulso formalmente do PCB por rejeitar a estratégia da via pacífica defendida pela cúpula partidária, assinou, em 1968, o documento que formalizou a criação da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização dedicada à resistência armada e à guerrilha urbana.

Sob seu comando e o de Joaquim Câmara Ferreira, a ALN realizou expropriações bancárias, distribuiu panfletos e forneceu apoio logístico ao sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969.

A emboscada, o caso dos dominicanos e a repercussão da morte


O avanço da repressão transformou Marighella no homem mais procurado pelo regime militar.

A perseguição culminou na noite de 4 de novembro de 1969, em uma operação articulada pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), sob o comando do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Para atraí-lo, agentes da repressão organizaram uma armadilha que envolveu frades dominicanos, entre eles Frei Betto, Frei Fernando e Frei Tito, religiosos de orientação progressista que prestavam apoio logístico à ALN.

Presos e submetidos a espancamentos e torturas psicológicas nas dependências do DOPS, os religiosos foram coagidos a marcar um encontro fictício na Alameda Casa Branca, em São Paulo, servindo involuntariamente de isca.

Marighella foi morto ao chegar ao local, dentro de um automóvel. A repercussão do episódio foi imediata. O regime promoveu intensa propaganda oficial, apresentando a morte do líder da ALN como um golpe decisivo contra a oposição armada.

Nos bastidores, entretanto, a brutalidade empregada contra os dominicanos causou indignação em setores da Igreja Católica e produziu consequências trágicas. Entre elas, o caso de Frei Tito, cujas sequelas físicas e psicológicas decorrentes da tortura contribuíram para seu suicídio, anos depois, no exílio.

A versão oficial divulgada pelas forças de segurança afirmava que Marighella havia morrido durante uma troca de tiros. Contudo, investigações posteriores e laudos periciais produzidos pela Comissão Nacional da Verdade contestaram essa narrativa, concluindo que não houve confronto armado. Segundo essas apurações, Marighella foi cercado e atingido por diversos disparos enquanto se encontrava sem condições de reação.

O legado teórico, a projeção internacional e a memória histórica


Autor do Manual do Guerrilheiro Urbano (1969), Marighella alcançou projeção internacional incomum para um militante revolucionário latino-americano. A obra foi traduzida para diversos idiomas, circulou clandestinamente em numerosos países e foi estudada tanto por movimentos insurgentes quanto por instituições militares e órgãos de inteligência.

Sua trajetória inspirou importantes trabalhos biográficos, entre eles a obra do jornalista Mário Magalhães, além de adaptações cinematográficas de grande repercussão.

O resgate de sua memória permanece relevante para a compreensão das tensões políticas do Brasil contemporâneo, da resistência à ditadura militar e dos mecanismos de repressão empregados pelo regime durante aquele período histórico.