Entretenimento
Performance no Farpa reflete sobre capacitismo e acessibilidade nas artes
Apresentação em Libras e Português marcou o segundo dia do festival em Arapiraca e provocou reflexões sobre representatividade e inclusão nos espaços culturais
A literatura encontrou diferentes caminhos para chegar ao público nesta quarta-feira (4), segundo dia do Festival Arte da Palavra (Farpa) em Alagoas. No Teatro Hermeto Pascoal, no Sesc Arapiraca, a programação começou com a performance literária Na Surdina, apresentada em Libras e em Português por Elinilson Soares e Lucas Sol (BA), e seguiu com o bate-papo Entre tempos: a escrita, que reuniu as escritoras Aline Cardoso (PB) e Karou Dias (BA), com mediação do analista em Literatura do Departamento Nacional do Sesc, Diogo Borges.
A performance Na Surdina levou ao palco uma discussão necessária sobre o lugar das pessoas com deficiência na sociedade e, especialmente, nos espaços de produção artística e cultural. Ao combinar Libras, Português, expressão corporal e literatura, os artistas convidaram o público a repensar as barreiras que ainda limitam a participação dessas pessoas e a reconhecer suas potencialidades.
A circulação pelo país, por meio do projeto Arte da Palavra, também permitiu aos artistas perceber o impacto dessas reflexões em públicos de diferentes realidades. Elinilson Soares destacou os encontros proporcionados pela iniciativa e a identificação dos espectadores com as questões abordadas no espetáculo. “A gente viu o interesse das pessoas na performance e também como elas se impactaram. Em cada lugar por onde passávamos, sentíamos a emoção das pessoas, porque muito do que falamos no espetáculo também fala sobre a vida delas”, relatou.
A necessidade de ampliar essa discussão também passa pela forma como os projetos culturais são concebidos e executados. Para Lucas Sol, é fundamental que a acessibilidade esteja presente em todas as etapas da produção artística, garantindo participação efetiva às pessoas com deficiência. “A gente precisa refletir sobre o capacitismo, que é o preconceito às pessoas com deficiência, uma forma de opressão. Precisamos pensar em estratégias de acessibilidade e também na contratação de pessoas com deficiência para os projetos artísticos e culturais”, defendeu.
O artista também chamou atenção para a importância de reconhecer a participação dessas pessoas em todo o processo de criação. “É assim que vamos conseguir ter, de fato, uma acessibilidade que dialogue com a arte, uma acessibilidade estética, tendo a presença de pessoas com deficiência em todo o processo”, completou.
A repercussão da apresentação também foi percebida entre os artistas que acompanhavam a programação. A escritora baiana Karou Dias, que participa da circulação do Arte da Palavra ao lado de Aline Cardoso, destacou a emoção provocada pela performance e a importância de reconhecer as pessoas com deficiência por suas capacidades e contribuições, sem reduzi-las às limitações impostas pelo preconceito.
“Essa apresentação do Lucas e do Elinilson foi muito emocionante, chorei do início ao fim, porque traz essa perspectiva da arte como união, como proximidade. O Elinilson fez isso no palco: ‘olha para mim, olha o que eu sei fazer’. Não existe um ‘mas’, como em ‘ele é surdo, mas é uma ótima pessoa’ ou ‘ela é negra, mas é uma ótima escritora’. A gente tem muito a acrescentar a partir disso. Foi muito bonito, e o Lucas foi maravilhoso também”, observou.
A reflexão dialoga com a própria proposta do Farpa, que busca colocar diferentes manifestações literárias em circulação e aproximar artistas e públicos de diversas regiões do país. Segundo Diogo Borges, a realização do festival em Alagoas integra um movimento de intercâmbio que valoriza tanto a produção local quanto a diversidade de expressões artísticas brasileiras.
“O Farpa é itinerante, já aconteceu na Bahia, em Pernambuco, em Paraty (Rio de Janeiro), em Belém do Pará e, agora, aqui em Alagoas. A programação considera os artistas locais, que vão estar compondo o festival com artistas de outros estados que estão circulando”, explicou.
O festival é uma mostra do projeto Arte da Palavra, considerado o maior circuito literário brasileiro, realizado pelo Departamento Nacional do Sesc em parceria com os Departamentos Regionais. Com curadoria coletiva, a iniciativa promove a circulação de artistas de diferentes estados, permitindo que suas produções alcancem públicos de outras regiões.
Para Diogo, essa troca também expressa os princípios da política cultural do Sesc, que contempla a acessibilidade, a democratização do acesso e a formação de plateia. “O Farpa é uma mostra disso, é a literatura brasileira contemporânea sem hierarquia. A gente não tem uma predominância da literatura escrita sobre a literatura falada, por exemplo. Temos em pé de igualdade, ou seja, contadores de histórias, poetas, slammers etc. no mesmo lugar”, ressaltou.
Na sequência da programação desta quarta-feira, o bate-papo Entre tempos: a escrita reuniu Aline Cardoso e Karou Dias para uma conversa sobre processos criativos, trajetórias e as diferentes relações que as escritoras estabelecem com a literatura. Mediado por Diogo Borges, o encontro ampliou o diálogo entre artistas de diferentes estados e apresentou ao público outras perspectivas sobre o fazer literário.
*O Farpa em Alagoas*
Realizado pela primeira vez em Alagoas, o Farpa integra a programação do projeto Arte da Palavra, considerado o maior circuito literário do país. De 3 a 5 de novembro, o festival reúne escritores e artistas de diferentes regiões brasileiras no Sesc Arapiraca, com atividades que passam por bate-papos, oficinas de criação literária, contação de histórias, performances e apresentações culturais. A proposta é aproximar o público das diversas formas de criação, circulação e manifestação da literatura.
A programação de encerramento, nesta quinta-feira (5), começou pela manhã com oficinas de escrita e slam, além de bate-papos com escritores convidados. À tarde, o público poderá acompanhar sessões de contação de histórias e uma apresentação dedicada à cultura popular, ao cordel, ao reisado e ao repente, com Poeta Beijú (PI) e Mago Véio (AL). À noite, o Sarau do Farpa, na Vila Vinil, antecede o show da cantora alagoana Fernanda Guimarães, que encerra o festival celebrando as raízes musicais nordestinas.
