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'Frances Ha' (2012): O que sobra de nós quando crescemos?

Indicação cultural do filme 'Frances Ha' (2012), dirigido por Noah Baumbach

Por Redação 30/07/2026 17h05 - Atualizado em 30/07/2026 18h06
'Frances Ha' (2012): O que sobra de nós quando crescemos?
'Frances Ha' (2012) - Foto: Pine District Pictures, RT Features e Scott Rudin Productions

Sacramento, localizada no estado da Califórnia, é a presença mais forte nas obras de Greta Gerwig. Local onde nasceu e cresceu, a atriz e diretora apresentou duas de suas mais importantes personagens ligadas a esse lugar de formas similares. Em meio ao crescimento doloroso e aos relacionamentos viscerais, a conclusão sempre é induzida a ser a mesma: não há nenhum outro lugar como nossa casa.

Dentro desse recorte, a temática ameaça ser repetitiva e rasa, como se vê em outras obras norte-americanas (filmes da Walt Disney se mostram um exemplo prático desse discurso). Greta muda esse conto: suas personagens não são heroínas da própria vida, tampouco da vida dos outros. Gerwig e Noah Baumbach se juntam para demonstrar que o caminho de casa não é suficiente para nos encontrarmos, mas é necessário para ser uma grande bússola.

Frances (Greta Gerwig) é uma mulher de 27 anos, vive em Nova Iorque e é dançarina. Sua ambição é simples: deseja entrar no grupo principal da academia de dança. A protagonista divide apartamento com sua melhor amiga, Sophie (Mickey Sumner), com quem nutre uma relação genuína, e passeia entre relacionamentos românticos sem muito significado. A dançarina sofre uma pequena mudança que desencadeia um desastre em sua vida: Sophie vai morar com o namorado.

Ao romper o contato físico que tinha com sua melhor amiga, Frances encara, pela primeira vez, o que se tornou. Com a idade que tem, sua reflexão não se resume apenas a uma pergunta, mas a um grande questionamento sobre a estrutura do que construiu em quase três décadas de vida. O único elo estável se desmancha e o sentimento de angústia nasce. As coisas não estão bem, mas isso não pode ser o fim do mundo.

O filme é todo preto e branco, as montagens se alternam entre o rosto solitário de Frances e a cidade vasta. O ritmo não ameaça o telespectador a chegar a um clímax dramático ou a uma emoção surpresa. Somos envolvidos por Frances, que tenta, a todo momento, encontrar algo que não se sabe bem o que é. Mesmo falhando, a dançarina tenta sem parar. Não há cores ou sons intensos, mas a promessa da apatia não se cumpre: a esperança de Frances contagia.

A falta de um rumo não é tão forte quanto o excesso de possibilidades. Frances compra uma passagem para Paris, com o dinheiro que não tem, junta-se a novas pessoas e se torna invisível perto de outras. Sua carreira parece distante e, aos vinte e poucos anos, percebe que não tem certeza das coisas. Longe de sua cidade natal, a protagonista tenta lembrar o que desejava antes de crescer. Viver em Nova Iorque, a cidade que nunca dorme, a fez querer fechar os olhos.

Greta havia aplicado esse artifício posteriormente em Lady Bird (2017). A personagem Christine McPherson (Saoirse Ronan) era uma adolescente que esperava resolver suas questões quando fosse para a faculdade. Ao chegar à cidade, sente-se tão perdida que vai para uma igreja lembrar da escola católica em que se formou depois de uma noite de bebedeira. Frances faz a mesma rota: volta para casa e vê seus pais, interpretados pelos pais da atriz.

Voltar para casa não trouxe nada para Frances, além da memória de que o ato de continuar ainda é possível. Frances, uma personagem brilhante e amável, tenta mais uma vez com o mesmo gosto da primeira. Diante de um drama que veríamos inúmeras vezes pela próxima década, Noah Baumbach nos mostra que não há uma linha de chegada, mas sempre um lugar que pode impulsionar o que vem depois. E o depois sempre é incerto.