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[Indicação] 'AFIM': Zé Ibarra transforma referências em assinatura própria
Resenha do álbum 'AFIM' (2025); indicação cultural.
Nascido no Rio de Janeiro, filho de uma produtora de eventos chilena e de um fotógrafo baiano, Zé Ibarra iniciou o refinamento da sua estreia solo desde o momento que integrou a banda Dônica, em 2014. A banda possuía uma forte influência do rock progressista brasileiro e do álbum experimental Clube da Esquina (1972), de Milton Nascimento, evidentes nas composições e produção do álbum Continuidade dos Parques (2015). As atividades do grupo se encerraram em 2017, mas isso não impediu o artista de seguir sua jornada na música.
Zé Ibarra continuou sua carreira na Bala Desejo, banda nascida no período pandêmico. Diferente da Dônica, a Bala Desejo seguia os passos da Bossa Nova e, às vezes, se aproximava de uma sonoridade própria, mas quase nunca chegava a um som totalmente inovador. No SIM SIM SIM (2022), álbum mais famoso do grupo, cria-se uma atmosfera coerente entre as faixas e uma produção agradável, mas nada que os evidenciasse além da sua cena específica.
A virada de chave ocorre quando o grupo se desfaz para seguir suas próprias carreiras em 2024. Zé Ibarra já havia construído um projeto solo um ano antes com Marquês, 256 (2023), que, a partir de faixas guiadas pelo violão e composições delicadas, apresentava os primeiros passos do que seria seu próximo álbum. Ao explicar AFIM, Ibarra se refere ao “mundo dos espelhos”, frase que sintetiza a obra e se mostra compatível com a produção do álbum. AFIM abrange oito faixas que não são revolucionárias pela originalidade, e sim pelo modo como incorporam todo o percurso vivenciado por Zé Ibarra em sua vida e carreira.
As faixas autorais de Zé Ibarra, Infinito em Nós e Transe, escancaram uma devoção desigual de um amor incerto. O eu-lírico mantém o benefício da dúvida em uma relação que não tem volta, mas que ainda gera esperança. Infinito em Nós é a única faixa que seria capaz de abrir o disco, a produção fortalece a voz de Ibarra como compositor, estruturando a proposta do artista com o álbum.
Composta por Sophia Chablau, a faixa Segredo é a mais popular do álbum. A música, na voz de Ibarra, torna-se uma confissão quase em tom suplicante, diferente do som original, recitado como uma declaração sensual e vibrante. A partir daqui, Zé Ibarra incorpora as parcerias de composição presentes no álbum, que ainda conseguem soar autorais pela interpretação congruente do cantor. Assim como as faixas anteriores, a letra expõe um amor tão devoto que se enlaça com a submissão.
A composição mais bela do álbum é, sem dúvida, Retrato de Maria Lúcia, escrita por Ítallo França. Zé Ibarra interpreta de forma madura a canção, demonstrando a saudade de forma crua e honesta. O cantor consegue transmitir o choro sem a voz embargada ou as lágrimas, sonorizando a tristeza e a ânsia do amor que consegue curar na presença e inflamar na ausência. O título da canção é associado ao nome de uma figura feminina mais velha, que pode ser interpretada como uma mãe ou uma avó. As entrelinhas demonstram que aquela relação é tão familiar que afeta a forma como o sujeito existe no mundo.
“Quando foi que dei por nós morava a sua voz no meu bom pensamento. Chegando sem querer, assim, meu benquerer, num lindo sentimento. Na falta do teu colo, a sorte me ignora, saudade que dá nó no peito e hoje chora. Se o amor é alimento, a fome da presença tua, vai morrendo quando eu chego na tua rua, sobre a noite banhada no frescor da Lua, você sorri ao me ver chegar.”
- Retrato de Maria Lúcia.
Em Da Menor Importância, Zé Ibarra traz sua antiga parceira da Bala Desejo, Maria Beraldo. Abrindo com o trecho: “Enquanto eu não ouço sua voz, eu não sei dizer se é um homem ou uma mulher. Se é uma mulher, mulher tão linda, se o rapaz é doce”. A música ousa ao entrar no campo da não-binaridade e da androginia, mostrando a atração pela imagem sem definição. É uma letra inteligente, que não limita as escolhas de Ibarra ao campo do relacional interpessoal, mas também ao que se entende de si a partir do outro.
AFIM dá força ao intérprete e relativiza o ditado moderno de que só é competente quem participa de todas as fases da construção da música. O disco cria uma nova camada, mostrando que o artista ainda consegue abordar com infinidade o próprio universo, reforçando que a reciclagem do que foi feito ainda pode ganhar força quando mediada pela noção da própria voz.


