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Dia Mundial do Livro: cenário da leitura em Alagoas preocupa especialistas
Especialista aponta baixo índice de leitores, avanço digital e falta de políticas públicas como entraves para o hábito da leitura no estado
Alguém pode te perguntar qual foi o último livro que você leu este ano ou no ano passado, e você pode muito bem responder que viu algum resumo ou uma resenha dessa obra (mesmo sem tê-la lido) em forma de vídeo no YouTube, em algum canal de literatura. O que também não é pouca coisa, já que é por meio desses canais que a literatura é disseminada e se torna acessível para quem não tem condições de comprar um livro.
Outras pessoas conseguem acessar livros digitais por meio de plataformas, seja pela pirataria ou por programas do governo federal, como o MEC Livros, plataforma literária lançada recentemente com mais de oito mil títulos de diversos escritores, brasileiros ou não, disponíveis gratuitamente. Segundo o governo federal, mais de 566 mil pessoas já se cadastraram no programa.
Apesar dos números positivos, no Dia Mundial do Livro, celebrado nesta quinta-feira (23), ainda há motivos de preocupação no que diz respeito aos desafios impostos pela inteligência artificial e ao consumo superficial da internet que, embora contribua para a democratização da literatura, também pode levar ao distanciamento do livro físico.
Em Alagoas, o cenário atual do livro é considerado preocupante, segundo o escritor e doutorando em estudos literários da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Richard Plácido. Para ele, o estado apresenta um dos piores indicadores de leitura e de formação de leitores, além de uma alta taxa de analfabetismo funcional — pessoas que sabem escrever o próprio nome e fazer contas, mas não têm o hábito da leitura.
"Às vezes, penso que muita gente culpa a população por essa falta de venda ou de circulação de literatura, mas a responsabilidade está no sistema. É o sistema que mantém as pessoas longe das artes e, principalmente, das artes literárias, da escrita e da leitura. As escolas ensinam as disciplinas básicas, mas o letramento literário ainda é distante", afirmou o escritor, que também comanda, em Maceió, junto com a escritora Érika Santos, a Livraria Novo Jardim.
Richard pontuou que, em Alagoas, é muito difícil trabalhar com o livro e que a maioria da população não tem convivência com ele, mas gosta de frequentar eventos literários, como a Bienal Internacional do Livro de Alagoas. "Tentam comprar um exemplar e visitam livrarias independentes, como a Novo Jardim, para apoiar o autor", disse.

O que é o livro em Alagoas?
Questionado sobre o que representa o livro e a leitura em Alagoas, o escritor destacou que o panorama não é favorável. "As pessoas encontram todo tipo de motivo para deixar o livro de lado, da internet a outros fatores, o que afeta até mesmo aqueles que costumam ler literatura."
Ele também citou a importância do trabalho com o livro nas escolas e a ausência de planos de leitura e literatura em Maceió e em outros municípios.
"O caminho nacional já é conhecido. A Secretaria de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura tem trabalhado na regularização de questões do Plano Nacional do Livro e Leitura. O Estado também tenta implementar o Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca. Recentemente, surgiu uma lei sobre a obrigatoriedade da circulação de literatura alagoana nas escolas estaduais, mas, em Maceió e em outros municípios, desconheço qualquer plano nesse sentido", pontuou.
Ainda segundo o doutorando, Alagoas é um estado de pessoas criativas, que gostam de ouvir e contar histórias, que veem o mundo de forma singular, mas que ainda não incorporaram, de forma consistente, o hábito da leitura literária.
Mesmo com o cenário considerado desfavorável em relação à leitura em Alagoas, Plácido acredita que o trabalho com o livro vem sendo mantido pela resistência de algumas pessoas, clubes de leitura, contadores de histórias e editoras independentes.
"A Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos tem feito um trabalho interessante com a Mira Dantas, e a Imprensa Oficial Graciliano Ramos tenta colaborar como pode, somando-se às editoras independentes, livrarias, clubes de leitura e contadores de histórias. O que eu gostaria de ver é o Estado assumir a responsabilidade de levar autores e autoras às bibliotecas escolares, comprando livros e dando suporte para que as editoras continuem publicando. É preciso que haja, de fato, uma circulação literária e que as escolas ofereçam aulas de literatura alagoana para apresentar a produção contemporânea", concluiu.

