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Por que Bad Bunny ainda não emplacou no Brasil, apesar do sucesso global
Artista mais ouvido do mundo lidera rankings internacionais, mas enfrenta barreiras em um mercado musical dominado por produção nacional Texto:
Astro global do pop latino, Bad Bunny domina as paradas internacionais, soma bilhões de reproduções nas plataformas digitais e acaba de protagonizar uma apresentação histórica no Super Bowl. Ainda assim, o cantor porto-riquenho segue como um fenômeno restrito no Brasil — um contraste que chama atenção na indústria da música.
Dados do Spotify mostram que, embora Bad Bunny tenha sido o artista mais ouvido do mundo em 2024, ele raramente aparece entre os mais tocados no Brasil. Sua melhor colocação no ranking nacional foi apenas a 55ª posição, desempenho inferior ao registrado em mercados como Estados Unidos, México, França, Alemanha e até Japão e Coreia do Sul.
Especialistas apontam que o principal obstáculo não é o idioma nem o gênero musical. O Brasil é um dos países que mais consomem música própria: cerca de 75% do streaming nacional é dedicado a artistas brasileiros, o que torna o mercado altamente competitivo e pouco permeável a estrangeiros, sobretudo fora do eixo anglófono.
Outro fator decisivo é econômico. No passado, gravadoras investiam milhões para lançar artistas internacionais no país, com forte presença em rádio, TV e turnês extensas. Esse modelo praticamente desapareceu com a consolidação do streaming, que reduziu drasticamente a rentabilidade e os investimentos em promoção internacional de longo prazo.
Há ainda uma questão estratégica. Diferentemente de nomes como Shakira, que aprenderam português, gravaram versões locais e se integraram à cultura brasileira, Bad Bunny evita adaptações artificiais. O cantor não gravou músicas em português nem realizou parcerias com artistas nacionais, mantendo um projeto artístico centrado na identidade porto-riquenha.
Paradoxalmente, sua sonoridade dialoga com o Brasil. O reggaeton e o dembow têm raízes afro-diaspóricas semelhantes às do funk, e temas abordados em suas letras — periferia, turismo predatório, gentrificação e festa — não são estranhos ao público brasileiro. Ainda assim, essa proximidade cultural não foi suficiente para garantir espaço consistente nas paradas nacionais.
Mesmo com shows esgotados em São Paulo, a presença limitada no país — apenas duas apresentações — reforça a leitura de que o Brasil segue como um mercado difícil de conquistar. Não por rejeição ao artista, mas por um sistema musical robusto, autossuficiente e cada vez mais concentrado em seus próprios ídolos.
O caso Bad Bunny ilustra um fenômeno maior: no Brasil, sucesso global não é garantia de liderança local. Aqui, a música estrangeira precisa mais do que hits — exige estratégia, investimento e, sobretudo, conexão direta com o público.


