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Yang da Paz: o artesão que levou a Ilha do Ferro às provas do Enem e vê a arte como transformação social

Artista fala sobre infância, influências, processo criativo e a repercussão que movimentou a vila

Por Evandro Souza 11/12/2025 10h10 - Atualizado em 11/12/2025 12h12
Yang da Paz: o artesão que levou a Ilha do Ferro às provas do Enem e vê a arte como transformação social
Obra de Yang da Paz coloca o povoado alagoano em evidência e fortalece a arte popular da região - Foto: Reprodução/Instagram

Situada a 18 km do município de Pão de Açúcar, às margens do Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, a Ilha do Ferro é um dos berços mais vibrantes da arte popular brasileira. 

O pequeno povoado, de ruas tranquilas e ateliês improvisados, respira criatividade: no quintal das casas, nas praças e à beira do rio, homens e mulheres transformam troncos, galhos e fios em esculturas, entalhes e bordados, especialmente o tradicional bordado Boa Noite, que há décadas dão identidade à comunidade e apresentado até na São Paulo Fashion Week, maior semana de moda da América Latina.

Em novembro de 2025, a ilha ganhou destaque nacional ao ser mencionada em uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O item citava a tradição do entalhe e a ressignificação de galhos e troncos realizada pelos artesãos locais. Em poucas horas, o nome da Ilha do Ferro se espalhou por reportagens, perfis e debates nas redes sociais, projetando sua produção artística para todo o país.

Entre os artistas que chamaram atenção está Yang da Paz, de 29 anos, autor da obra que apareceu no exame. Em entrevista ao Jornal de Alagoas, ele falou sobre sua trajetória, o impacto da repercussão e seus próximos passos.

“Eu era curioso, pegava a faca e tentava copiar meu pai”

Yang conta que descobriu a vocação artística ainda criança, quando sua família vivia no acampamento do MST chamado Riacho Grande, às margens do São Francisco. Ali, seu pai, o mestre Petrônio, começou a vender madeira morta, craibeira, mulungu, umburana, ao mestre Fernando [responsável por ajudar a divulgar a potência que estava escondida na Ilha do Ferro], que o desafiou a produzir um ex-voto [objeto de arte popular, geralmente uma pequena escultura ou peça entalhada em madeira]. A partir daquele primeiro pedido, Petrônio passou a esculpir com frequência.

“Eu ficava vendo ele fazer os esvotos, formigas, pássaros. Quando ele largava as ferramentas, eu pegava a faca, o facão, e tentava copiar tudo aquilo”, lembra.

Aos 10 ou 11 anos, Yang já vendia suas primeiras peças por 25 ou 50 centavos, e começou a ver na arte não só uma brincadeira, mas uma fonte de renda e de futuro.

Entre o real e o imaginário

O processo criativo de Yang nasce tanto da observação quanto do acaso. Segundo ele, há dois caminhos: reproduzir aquilo que vê no cotidiano, pássaros, por exemplo, ou seguir o fluxo da natureza e do imaginário.

“Tem peças que eu encontro na mata. Vejo um tronco totalmente diferente e enxergo um formato nele. Depois tento mostrar para as pessoas aquilo que eu vi. Cada pessoa interpreta de uma forma”, explica. Em seu trabalho, ferramentas simples se misturam a instrumentos mais robustos: faca, facão, serra, motosserra, lixadeira, lixa de mão e tintas.

A convivência com outros artistas da Ilha do Ferro, afirma, também moldou sua forma de criar. “Hoje as pinturas são completamente imaginárias. A escultura pode até parecer com algo real, mas a pintura é outra coisa.”

Dos “jogadores” aos “bailarinos”: a obra que chegou ao Enem

A peça citada no Enem faz parte da série dos “bailarinos”, que evoluíram de esculturas de jogadores de futebol criadas por Yang no início da carreira. Os modelos foram se transformando com pedidos de compradores e influências de outros artesãos até alcançarem a estética atual.

Questão do Enem sobre Alagoas. Foto: Reprodução/Instagram

"Foi dessa mudança dos jogadores de futebol, a influência das outras pessoas, e eu fui transformando as peças até chegar nos bailarinos", explicou.

Reconhecimento que transforma vidas

A repercussão nacional não mudou apenas a rotina de Yang, ela fortaleceu toda a comunidade.

“É bom para mim, para a Ilha do Ferro e para todos os artistas da região. Isso atrai pessoas para conhecer a ilha e ajuda até quem está começando. Na minha família, a arte sempre foi transformação social. Por isso ensino outras pessoas a fazer artesanato”, afirma.

Com oficinas em comunidades carentes, assentamentos e durante viagens, o artista reforça o papel social da arte. “Ensinar é uma forma de transformar outras vidas também.”

Planos para o futuro


Yang pretende continuar produzindo, viajando e divulgando o nome da ilha país afora. “Sempre convido as pessoas a conhecerem a Ilha do Ferro, porque é um lugar único, diferente de tudo. É quente, mas vale muito a pena”, brinca.