Eleições 2026

Doações milionárias a partidos crescem e dificultam rastreamento da origem

Esse novo arranjo transfere a identificação dos doadores das prestações de contas eleitorais para as contas partidárias, cujo prazo de declaração é mais longo e menos rigoroso

Por Sputnik Brasil com Redação 31/08/2026 08h08
Doações milionárias a partidos crescem e dificultam rastreamento da origem
Foto: © Foto / Marcello Casal Jr / Agência Brasil

O aumento das doações milionárias de grandes empresários diretamente aos partidos políticos no Brasil está criando obstáculos para rastrear a origem dos recursos usados em campanhas eleitorais. Esse novo arranjo transfere a identificação dos doadores das prestações de contas eleitorais para as contas partidárias, cujo prazo de declaração é mais longo e menos rigoroso.

Segundo reportagem de um jornal de grande circulação, empresários têm preferido repassar recursos diretamente aos partidos, e não às campanhas, criando uma camada extra entre o doador e o candidato. Enquanto as campanhas precisam detalhar toda a arrecadação até 30 dias após o pleito, os partidos só precisarão prestar contas dessas doações em junho de 2027.

O volume dessas contribuições privadas cresce rapidamente. Até 24 de agosto, partidos haviam declarado R$ 43,4 milhões para manutenção partidária — mais da metade dos R$ 78 milhões repassados por pessoas físicas às campanhas. Esses números tendem a aumentar, pois os diretórios ainda atualizam dados no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O fenômeno da concentração das doações é evidente. Entre junho e agosto, meses de pré-campanha, as contas partidárias receberam R$ 21,7 milhões. Em 2026, 114 pessoas doaram mais de R$ 20 mil aos partidos, totalizando R$ 24,4 milhões; 53 ultrapassaram R$ 100 mil, e seis doaram R$ 1 milhão ou mais. Em 2025, ano sem eleição, o grupo acima de R$ 20 mil somou R$ 15,4 milhões, sem registros de doações milionárias.

A legislação permite que o fundo partidário financie operações internas e que recursos sejam transferidos às campanhas, desde que declarados. Já o fundo eleitoral é exclusivo para as disputas. A diferença nos prazos e classificações cria brechas: doações privadas registradas como manutenção podem, posteriormente, ser usadas para quitar dívidas eleitorais, desde que autorizadas pela executiva partidária.

O Republicanos é o partido com maior concentração de grandes doações. Entre 15 e 30 de junho, executivos e conselheiros do setor sucroenergético (ligados a Cosan, São Martinho, Cocal e Copersucar) doaram cerca de R$ 1,3 milhão ao diretório nacional. No total, o partido recebeu R$ 7,4 milhões de pessoas físicas. Tarcísio de Freitas, principal nome da sigla, chegou a exaltar publicamente sua relação com empresários do agronegócio paulista durante debate com Fernando Haddad (PT).

A campanha de Tarcísio recebeu R$ 8,8 milhões via fundo partidário, sendo Fernando de Castro Marques, da União Química, o maior doador individual. O histórico de doações já levou o governador a prestar esclarecimentos em 2022, mas nem ele nem o partido responderam aos questionamentos atuais sobre as doações concentradas no diretório nacional.

No mesmo partido, o governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta, aparece com duas frentes de repasses: R$ 250 mil para a própria campanha e outros R$ 3 milhões registrados em seu nome nas contas partidárias — a maior doação individual do ano.

O movimento, no entanto, não se restringe ao Republicanos. No PT, José Seripieri Filho repassou R$ 2 milhões ao diretório municipal de Araraquara. No MDB, Fabiano Silveira doou R$ 2 milhões ao diretório da Paraíba, segundo o jornal.

Dirigentes partidários relataram à imprensa uma dinâmica paralela: doações privadas são registradas como manutenção e usadas internamente, enquanto valores equivalentes do fundo partidário são transferidos às campanhas, sem ligação direta ao doador original. Isso mantém a legalidade, mas dificulta a transparência sobre quem financia efetivamente cada candidatura.

Os dados ainda são provisórios e podem mudar, já que as contas partidárias só serão obrigatórias em 2027 e o TSE atualiza a base à medida que os diretórios inserem novas informações. Entre 15 e 22 de agosto, foram registradas 119 novas doações, somando R$ 3,1 milhões, algumas referentes a meses anteriores, o que evidencia que o fluxo financeiro ainda está longe de estabilizar, conclui a reportagem.

Por Sputinik Brasil