Eleições 2026
Inteligência artificial amplia riscos de desinformação e fragmenta consenso
Há mais de uma década, a influência da internet nas campanhas eleitorais é tema de debate no Brasil
O uso crescente da inteligência artificial nas eleições brasileiras desafia as instituições e levanta preocupações sobre a qualidade do debate público e a propagação de desinformação.
Há mais de uma década, a influência da internet nas campanhas eleitorais é tema de debate no Brasil, com as redes sociais desempenhando papel central nesse processo. Inicialmente, o ambiente digital foi visto como espaço para articulação política, mas, com o tempo, os algoritmos passaram a direcionar conteúdos, criando um cenário opaco e difícil de ser regulado.
Nos últimos anos, aplicativos de mensagens rápidas se destacaram como canais de disseminação em massa de notícias falsas, incluindo vídeos manipulados (deepfakes) com alta semelhança aos candidatos reais. Diante desse cenário, o poder público busca regulamentar o uso de novas tecnologias para evitar distorções no processo eleitoral.
O mais recente desafio é a inteligência artificial. Enquanto o Congresso discute o marco legal da IA, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiu um cronograma para que os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) criem unidades próprias de segurança da informação, visando coibir o uso indevido dessas ferramentas nas eleições.
Entre as normas aprovadas pelo TSE em março, está a proibição de que sistemas de IA indiquem candidatos aos usuários, mesmo que haja solicitação. Também não são permitidas postagens com conteúdo manipulado nas 72 horas anteriores e nas 24 horas seguintes à votação, abrangendo imagens e áudios de candidatos ou figuras públicas.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a inteligência artificial pode reduzir o espaço para debates e a construção de consensos na sociedade, especialmente durante as eleições. Segundo Henrique Carlos de Castro, professor da UFRGS e pesquisador da relação entre tecnologia e política há mais de 30 anos, a IA acelerou e aprofundou a capacidade de influência sobre o eleitorado, tendência que tende a se intensificar.
"Se sempre usamos tecnologias para impor nossas visões de mundo, a inteligência artificial aprofunda esse processo, tornando-o mais rápido, sofisticado e menos perceptível", analisa Castro. Ele ressalta que as pessoas preferem receber informações de forma simples e direcionada, semelhante ao marketing digital, o que dificulta o acesso a informações mais aprofundadas sobre candidatos.
"A IA trabalha segmentando informações para grupos com valores e ideias comuns, facilitando a persuasão. Quanto mais direcionada a mensagem, maior o poder de convencimento", explica o professor.
Para Castro, a IA na política tende a construir dissensos e subgrupos, priorizando convicções pessoais em detrimento do debate público. "A política precisa do debate. O momento atual é de pequenos consensos sem reflexão, certezas sem questionamento", alerta.
O especialista defende a necessidade de educação digital, destacando que democracia não se resume ao voto, mas à participação ativa nas questões públicas. "Conversar com máquinas que apenas concordam com o usuário reforça percepções e cria um 'consenso rebaixado', sem espaço para mudanças sociais reais", conclui.
Impacto da IA nas fake news
Victor Escobar David, mestre em sociologia política pelo Iuperj e doutorando na UFRRJ, observa que o eleitor brasileiro já compreendia como notícias falsas eram criadas e disseminadas. Antes, candidatos ou apoiadores produziam fake news, que se espalhavam rapidamente pelas redes sociais. Com a IA, porém, distinguir o que é verdadeiro ou falso tornou-se ainda mais difícil.
"A maior preocupação é que a IA pode ser treinada para reproduzir informações de fontes não confiáveis, sem análise crítica, e com aparência de veracidade devido à confiança nas plataformas", alerta David.
Ele aponta que a Justiça Eleitoral sempre enfrentou desafios para fiscalizar a disseminação de desinformação, tanto em material impresso quanto nas redes sociais. Ainda assim, David avalia positivamente as ações do TSE para limitar o uso de IA nas eleições.
"A proibição de que IAs recomendem candidatos evita direcionamento de votos por critérios opacos e por plataformas estrangeiras, protegendo a soberania e a integridade do processo eleitoral brasileiro", defende.


