Eleições 2026
Minirreforma eleitoral limita e parcela multas a partidos políticos
Texto altera a prestação de contas dos partidos, flexibiliza regras de controle — limitando e parcelando multas a legendas com contas desaprovadas
A aprovação da minirreforma eleitoral, realizada em votação simbólica e sem registro em painel, tem sido alvo de críticas de entidades da sociedade civil. O texto altera a prestação de contas dos partidos, flexibiliza regras de controle — limitando e parcelando multas a legendas com contas desaprovadas — e autoriza o envio de mensagens em massa a eleitores previamente cadastrados.
A matéria foi aprovada na noite de terça-feira (19) pela Câmara dos Deputados, sem que o texto estivesse na pauta oficial. A votação simbólica, sem identificação dos votos dos parlamentares, gerou reações negativas:
"A aprovação ocorreu por votação simbólica, sem identificação individualizada dos votos parlamentares, dificultando que a população conheça o posicionamento de seus representantes sobre as medidas", afirma nota de repúdio do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE).
O texto segue agora para o Senado. Se aprovado e sancionado, a minirreforma trará mudanças relevantes na fiscalização e punição de partidos políticos, limitando multas e protegendo os recursos do Fundo Partidário, que não poderá ser bloqueado.
Para o MCCE, composto por mais de 70 organizações da sociedade civil, caso se torne lei, a proposta vai fragilizar mecanismos de controle sobre o uso dos fundos Eleitoral e Partidário e representa um "grave retrocesso" para o país.
Já para o relator, deputado Rodrigo Gambale (Pode-SP), o projeto traz alterações estruturais e necessárias à Lei dos Partidos Políticos, otimizando a gestão partidária, garantindo segurança jurídica às agremiações e harmonizando as normas de fiscalização com princípios constitucionais de proporcionalidade e razoabilidade.
Entenda as principais mudanças
O projeto de lei aprovado (PL 4822/2025) modifica regras da legislação eleitoral e partidária, alterando itens importantes como prestação de contas, punições e propaganda política.
- Limite de R$ 30 mil para multas por contas desaprovadas;
- Proibição de bloqueio ou penhora de recursos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral;
- Autorização para envio de mensagens automatizadas a eleitores cadastrados;
- Redução do prazo para julgamento de contas pela Justiça Eleitoral, podendo levar ao encerramento do processo sem decisão definitiva;
- Possibilidade de parcelamento de dívidas de partidos em até 15 anos.
Parte dessas medidas é considerada sensível porque pode reduzir o alcance das sanções ou limitar instrumentos de controle do uso de recursos públicos pelos partidos.
Um dos exemplos é o teto para multas: com a nova regra, irregularidades de alto valor passarão a ter punição limitada, reduzindo o caráter proporcional das penalidades.
Outro ponto é a proibição de penhora de recursos dos fundos Partidário e Eleitoral. Na prática, a medida restringe a possibilidade de bloquear esses valores para pagamento de dívidas, o que pode dificultar a execução de decisões judiciais.
Na área de fiscalização, a redução do prazo para julgamento das contas — de cinco para três anos — pode levar ao encerramento de processos sem decisão, caso não sejam analisados dentro do período.
Além disso, o projeto estabelece que cada diretório partidário responde apenas por suas próprias irregularidades, o que pode fragmentar a responsabilização e dificultar a atuação da Justiça Eleitoral em casos mais amplos.
Propaganda eleitoral
A proposta também altera regras de campanha ao permitir o envio de mensagens automatizadas a eleitores previamente cadastrados. Esse envio não será considerado irregular quando direcionado ao público cadastrado.
Para críticos, essa medida pode ampliar o uso de ferramentas digitais com menor controle, especialmente em relação à disseminação de conteúdo em massa.
Reação do MCCE
Em nota pública de repúdio, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral afirmou que o projeto representa "grave retrocesso" para a fiscalização e a transparência partidária, já que "enfraquece mecanismos de fiscalização e transparência".
"O projeto flexibiliza regras de prestação de contas, amplia possibilidades de parcelamento e renegociação de multas com recursos públicos, enfraquece sanções aplicáveis a irregularidades cometidas por partidos políticos e aprofunda medidas de anistia relacionadas ao descumprimento de cotas de raça e gênero", diz a nota.
Segundo o MCCE, a proposta facilitará fusões partidárias, dificultando a responsabilização de legendas por irregularidades já apuradas, além de fragilizar instrumentos de controle sobre o uso do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral.
"Também causa preocupação a autorização para disparos massivos automatizados de mensagens em campanhas eleitorais, medida que ignora os impactos da desinformação registrados nos últimos processos eleitorais", acrescentou.
Tramitação sem debate
O MCCE também criticou a forma como o PL tramitou na Câmara:
"O tema foi incluído na pauta de maneira repentina, sem o necessário debate público com a sociedade civil, especialistas e instituições comprometidas com a defesa da integridade eleitoral."
"O MCCE espera que o Senado Federal promova ampla discussão sobre a matéria e impeça a consolidação de medidas que representem retrocessos para a transparência, a igualdade política e a integridade eleitoral no Brasil", conclui a nota.
O movimento reúne, entre suas entidades participantes, CNBB, OAB e entidades de classe ligadas à Polícia Federal, aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.


