Economia

Medidas da União Europeia contra carne brasileira reacendem impasse em acordo

Por Sputnik Brasil 04/09/2026 10h10
Medidas da União Europeia contra carne brasileira reacendem impasse em acordo
Foto: © AP Photo / Silvia Izquierdo

A decisão da União Europeia de suspender as importações de carnes e outros produtos do Brasil reacendeu preocupações no Mercosul, diante da possibilidade de as medidas terem sido adotadas sem justificativa técnica adequada, segundo especialistas ouvidos pela Sputnik. As exigências rigorosas do bloco europeu também podem tornar os mercados asiáticos cada vez mais atraentes para os exportadores sul-americanos.

Na última quinta-feira (3), a União Europeia implementou a suspensão das importações de carne bovina, aves, peixes, ovos e mel do Brasil, alegando suspeitas de “uso intensivo” de antibióticos na pecuária nacional.

O bloco europeu já havia sinalizado restrições ao Brasil em maio e decidiu impor a sanção, sob a alegação de que Brasília não comprovou, de forma suficiente, o cumprimento das normas sanitárias exigidas.

A reação do governo brasileiro foi de “profunda preocupação”. O governo Lula afirma já ter apresentado a documentação necessária para atestar a conformidade com as regras europeias. Em comunicado, o Brasil lembrou que, em maio, manifestou sua “indignação” a Bruxelas pelo fato de a UE ter adotado a medida sem diálogo prévio.

A apreensão se estende a todo o bloco Mercosul, que está nos estágios iniciais de implementação do acordo comercial assinado com a UE, previsto para entrar em vigor em janeiro de 2026, após mais de duas décadas de negociações. Após reunião informal dos ministros de Relações Exteriores do Mercosul, realizada na quarta-feira (2), em Montevidéu, o chanceler uruguaio Mario Lubetkin confirmou a preocupação dos países-membros.

“Do nosso ponto de vista, o acordo Mercosul-UE deve ser um mecanismo para abrir portas, e não para abri-las e fechá-las dependendo de certos aspectos. Principalmente por parte da Europa, porque não é o que acontece conosco”, declarou Lubetkin à imprensa.

Alerta para o Mercosul

O analista internacional uruguaio Ignacio Bartesaghi destacou, em entrevista à Sputnik, que embora a discussão seja inicialmente “técnica” e a UE tenha o direito de impor normas sanitárias, a medida pode ser problemática caso não seja devidamente justificada.

Segundo Bartesaghi, o bloco europeu tem o direito de aplicar sanções “desde que sejam cientificamente verificáveis e não discriminem, ou seja, que os mesmos requisitos sejam aplicados aos próprios produtores europeus”.

O especialista ressaltou ainda que a medida pode ser considerada “ilegal” caso a UE não leve em conta as evidências apresentadas pelo Brasil nas negociações para suspensão da sanção, como alega o governo brasileiro.

“Sim, devemos ter cuidado para que esta não seja uma medida protecionista, consequência da pressão de certos atores da UE que, como sabemos, se opuseram ao acordo do Mercosul. São os mesmos atores que forçaram a implementação de salvaguardas para produtos agrícolas que podem ser acionadas com muita facilidade”, alertou.

Bartesaghi reconheceu que a suspensão das importações brasileiras pode beneficiar temporariamente outros países do Mercosul, que poderiam ocupar espaços deixados pelo Brasil, mas afirmou que Argentina, Uruguai e Paraguai não poderiam “aplaudir” a sanção, pois ela também pode afetá-los futuramente, tanto no setor de carnes quanto em outros segmentos.

Mercado asiático ganha força

O analista paraguaio e especialista em direito do Mercosul, Mario Paz Castaing, afirmou à Sputnik que a decisão da UE se encaixa nas exigências e barreiras não tarifárias já tradicionais do bloco europeu, e está relacionada a pressões internas de produtores agrícolas e pecuários da Europa.

Apesar disso, Castaing demonstrou otimismo de que o impasse será superado, principalmente porque, segundo ele, “a Europa precisa de acordos internacionais”, diante do atual cenário de relações com os EUA, consequências do conflito na Ucrânia e crescimento de movimentos antieuropeus em diversos países.

O especialista também destacou que, mesmo com maiores dificuldades para exportar carne e alimentos à UE, o Mercosul pode encontrar oportunidades mais lucrativas no mercado asiático. “A carne tem alta demanda na Ásia hoje, e embora eles tenham exigências, certamente são menores do que as dos europeus”, afirmou.

Paz Castaing elogiou o avanço do Mercosul em negociações com importantes mercados asiáticos, como Japão, Vietnã e Cingapura, e mencionou a reabertura de diálogos com a China.

Ele citou ainda o exemplo do Paraguai, que defende uma distribuição mais equitativa das cotas de acesso ao mercado europeu. Segundo o especialista, o foco exclusivo na Europa, como defendem Argentina e Brasil, pode não ser tão vantajoso para todos, sendo mais interessante diversificar os destinos das exportações.

Para Castaing, os países do Mercosul devem priorizar a resolução de divergências internas e aproveitar o momento internacional, evitando depender excessivamente de alinhamentos externos.