Economia

Desigualdade social dificulta formalização do emprego entre jovens

Entre os jovens das classes A/B, 43% trabalham em empregos formais, enquanto nas classes D/E esse percentual é de 35%

Por Agência Brasil 21/08/2026 12h12
Desigualdade social dificulta formalização do emprego entre jovens


A formalização do trabalho entre jovens brasileiros de 16 a 29 anos é marcada por profundas desigualdades, segundo a pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho, realizada pela Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva.

O levantamento, divulgado nesta sexta-feira (21) durante o evento Trampos do Futuro, no Pavilhão da Fundação Bienal de São Paulo, ouviu 1.816 jovens de todas as regiões do país entre 11 e 23 de maio deste ano.

A pesquisa detalha que, dos 70% de jovens que declararam estar trabalhando, apenas 44% possuem carteira assinada. Outros 15% são assalariados sem registro formal, 13% atuam como autônomos ou freelancers, 10% exercem trabalhos informais e 8% são estagiários ou aprendizes remunerados.

Atualmente, 20% dos jovens de 16 a 29 anos buscam emprego no Brasil. Outros 29% procuraram trabalho nos últimos seis meses e 61% tentaram uma nova colocação no último ano.

Desigualdades sociais, regionais e raciais

Entre os jovens das classes A/B, 43% trabalham em empregos formais, enquanto nas classes D/E esse percentual é de 35%. Por outro lado, 21% dos jovens das classes D/E atuam sem registro, contra 13% nas classes A/B.

A formalização é mais comum entre jovens do Sul (58%) e Sudeste (55%) do que no Norte (29%) e Nordeste (20%).

Em relação à raça, 49% dos jovens brancos têm emprego formal, ante 41% dos negros. Já 12% dos jovens negros dependem de bicos informais, enquanto entre os brancos esse índice é de 5%.

O trabalho informal é realidade para 34% dos jovens que estudaram até o ensino fundamental. Entre aqueles com ensino superior, apenas 3% estão nessa condição.

Entregadores de aplicativo trabalham na região do Centro do Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Dificuldades para conseguir emprego

Quase metade (49%) dos entrevistados apontou a falta de experiência como principal obstáculo para conquistar uma vaga, seguida pela alta concorrência (39%).

Para 96% dos jovens, conhecer alguém em uma empresa ou ser indicado por familiares ou amigos facilita a conquista de um emprego atualmente. 77% conseguiram seu emprego atual por indicação, índice que sobe para 81% entre os jovens de 25 a 29 anos. Já 23% nunca tiveram uma oportunidade por indicação.

A indicação é considerada decisiva para 32% dos jovens das classes A/B e para 16% das classes D/E.

Planos para o futuro

Atualmente, 30% dos jovens brasileiros desejam um emprego com carteira assinada. No entanto, projetando os próximos cinco anos, esse percentual cai para 16%, enquanto a preferência por trabalho autônomo cresce de 28% para 42%.

Segundo Carla Chiamareli, gerente do Observatório da Fundação Itaú, essa mudança reflete o amadurecimento dos jovens: “O jovem entende que precisa começar a vida profissional com estabilidade para adquirir experiência e, depois, pode escolher estar dentro de uma empresa ou não”.

O interesse pelo trabalho autônomo nos próximos cinco anos é maior entre jovens com filhos (50%), residentes no Sul (49%), Centro-Oeste (48%), no interior (45%) e jovens brancos (45%). Já o desejo por emprego formal é mais frequente entre jovens das classes D/E (23%), com ensino fundamental (22%) e juventudes negras (18%).

Para 91% dos jovens, sua situação financeira estará melhor em cinco anos. Outros 88% acreditam que terão condição financeira superior à dos pais e reconhecem a necessidade de estudar mais para conquistar um bom emprego. Já 46% acreditam que conseguirão uma boa oportunidade no futuro.

Entre as áreas de interesse para o futuro, destacam-se saúde (25%), tecnologia (22%), comércio e trabalho administrativo (19% cada), educação (16%), beleza e estética (14%) e comunicação e redes sociais (13%).

Prioridades no trabalho

O salário é o principal critério para 64% dos jovens na escolha de um emprego, seguido por benefícios, plano de carreira e ambiente agradável (31% cada).

Ao mesmo tempo, 62% aceitariam ganhar menos para trabalhar em um ambiente mais saudável, com menos pressão e estresse.

Entre os jovens que já trabalharam, 69% pediram demissão por vontade própria. Os principais motivos foram falta de respeito ou tratamento inadequado de chefes (43%), jornadas longas ou acúmulo de funções (36%), excesso de cobrança (32%), falta de oportunidade de crescimento (28%) e dificuldade de conciliar trabalho e estudo (16%).

Estudo e trabalho

Segundo a pesquisa, 48% dos jovens estudam, 32% conciliam estudo e trabalho, 39% apenas trabalham e 13% não estudam nem trabalham.

Metade dos entrevistados (50%) afirmou ser responsável por cuidar da casa, além de estudar ou trabalhar. Essa sobrecarga é mais comum entre mulheres (60%) do que homens (40%). O cuidado com idosos, crianças ou outras pessoas é realizado por 28% das mulheres e 14% dos homens.

Alunos do ensino médio do CED 16, na Ceilândia, intensificam a preparação para o Enem. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Entre os jovens que estudam, 41% cursam ensino superior, 27% estão no ensino médio, 18% fazem cursos livres e 11% estão no ensino técnico.

O diploma superior é considerado importante para obter trabalho por 85% dos jovens, com destaque para a Região Norte (91%). No entanto, 91% avaliam que cursos técnicos e profissionalizantes são caminhos mais rápidos e eficientes para conquistar emprego. Para 60%, programas de apoio à inserção no mercado devem priorizar cursos práticos, não apenas teóricos.

Competências socioemocionais

Carla Chiamareli destaca que falta preparar o jovem para compreender e se organizar no mundo do trabalho. “A educação está muito focada em português e matemática, que são essenciais, mas investe pouco em competências socioemocionais”, afirma. Para ela, a escola deve ensinar resiliência, capacidade de lidar com frustrações e adaptabilidade, competências que também deveriam integrar o currículo.

Medo da inteligência artificial

Nove em cada dez jovens acreditam que a inteligência artificial (IA) vai eliminar muitas vagas de trabalho, e 50% têm medo de perder espaço devido aos avanços tecnológicos.

O temor é maior entre jovens com ensino fundamental (62%), das classes D/E (63%), pessoas com filhos (57%) e mulheres (55%). Entre jovens das classes A/B, o receio é de 39%.

Apesar disso, 97% dos entrevistados usam IA e internet para aprender e crescer profissionalmente.

Mais oportunidades e inclusão

Para Carla Chiamareli, a pesquisa sugere que as empresas repensem suas estruturas e ampliem a inclusão dos jovens brasileiros.

Ela lembra que o Brasil possui a Lei de Aprendizagem Profissional nº 10.097/2000, que exige a contratação de jovens aprendizes entre 14 e 24 anos por empresas de médio e grande porte, promovendo inclusão social e o primeiro emprego. Contudo, ainda existe uma margem de 40% de empresas que poderiam abrir espaço para jovens, especialmente de baixa renda.