Economia

Prazo para decisão sobre tarifaço dos EUA contra o Brasil chega ao fim sem acordo

O último encontro entre autoridades dos dois países ocorreu na terça-feira (14)

Por Sputnik Brasil com Redação 15/07/2026 05h05
Prazo para decisão sobre tarifaço dos EUA contra o Brasil chega ao fim sem acordo
Foto: © Foto / José Cruz / Agência Brasil

Sem acordo de última hora entre Brasília e Washington, termina nesta quarta-feira (15) o prazo estabelecido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para decidir sobre a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre parte das importações brasileiras.

O último encontro entre autoridades dos dois países ocorreu na terça-feira (14). Segundo o governo federal, representantes dos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços participaram de reunião de alto nível com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer.

"Na reunião de hoje, foi reiterado o caráter injusto da aplicação das recomendações já divulgadas, seja a resultante da Seção 301 específica para o Brasil, de sobretaxas de 25%, seja a de 12,5% (Seção 301 – trabalho forçado) aplicável a outras 59 economias", informou o governo em nota.

O Executivo federal reforçou que não há justificativa para a aplicação da taxa. "Cumprindo a orientação do presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado", concluiu.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a resposta brasileira para eventuais tarifas norte-americanas só será definida após a oficialização da medida. Até lá, segundo o chanceler, o diálogo permanece aberto.

"Deve ser anunciado em algum momento, brevemente. Vamos examinar a base das tarifas e reagir. Não deixamos de negociar e de conversar até o último momento", declarou Vieira durante agenda bilateral com a ministra do Canadá, Anita Anand. Ele também destacou que o Brasil possui mecanismos para lidar com uma eventual nova política tarifária.

Durigan prevê estudo sobre reciprocidade

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que, caso a tarifa seja implementada pela Casa Branca, o governo pode recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada no ano passado quando os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50%. À época, com o recuo de Washington, a lei, sancionada em abril de 2025, não chegou a ser aplicada.

"Com isso, agora, acho que é provável que a gente, uma vez consultado com o presidente Lula, que a gente retome o processo de reciprocidade", disse Durigan.

Exigências ligadas ao Pix e ao etanol brasileiro

A proposta de taxação ao Brasil é resultado de investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. As negociações, conduzidas por um grupo técnico nas últimas semanas, não avançaram em pontos-chave, como as exigências norte-americanas relacionadas ao Pix e ao etanol.

O governo brasileiro recusou negociar mudanças no sistema de pagamentos instantâneos e manteve a posição de deixar o etanol fora das tratativas. Em contrapartida, defendeu a redução das tarifas impostas ao açúcar brasileiro, proposta rejeitada pelos Estados Unidos.

As discussões também passaram por audiências públicas promovidas pelo USTR em Washington. Durante sete painéis técnicos realizados na última semana, representantes de empresas e associações brasileiras e norte-americanas defenderam a retirada total ou parcial das tarifas e contestaram as críticas dos EUA ao Pix.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Gustavo Pessoa, que participou das audiências, avaliou que os argumentos técnicos dos Estados Unidos perderam força ao longo dos debates. Apesar disso, Pessoa acredita que a decisão final tende a ser política, e não técnica.

Na segunda-feira (13), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou não acreditar na adoção da sobretaxa pelos Estados Unidos. "Não vai ter tarifaço", disse o presidente após participar do lançamento de uma turbina movida a etanol, em São José dos Campos (SP).

A orientação do governo, no entanto, é manter o diálogo sem abrir mão de temas considerados estratégicos para o Brasil.

Flávio Bolsonaro atribui impasse ao governo Lula

O senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), afirmou que a tarifa de 25% deverá ser aplicada e responsabilizou o governo Lula pelo impasse nas negociações. O anúncio sobre a possibilidade da taxa foi feito pelo governo Donald Trump um dia após a visita do senador à Casa Branca, o que gerou críticas.

"A tarifa vai chegar para o Brasil. Não é nenhuma informação privilegiada. O Lula não manda ninguém para negociar", declarou o parlamentar em transmissão nas redes sociais na última segunda-feira.

Segundo Flávio, o governo brasileiro colocou "a ideologia acima" dos interesses econômicos e adotou postura de confronto com Washington. O senador também criticou o discurso do Planalto sobre soberania nacional e afirmou que o próprio governo estaria provocando a adoção das tarifas.

A declaração ocorreu uma semana após a participação de Flávio Bolsonaro em audiência promovida pelo USTR, em Washington. Relatos de empresários e analistas presentes apontam que a intervenção do senador frustrou a expectativa do setor privado por uma defesa técnica contra a sobretaxa.

De acordo com avaliações posteriores, empresários esperavam que o parlamentar apresentasse dados sobre os impactos econômicos das tarifas para empresas e consumidores dos dois países. Em vez disso, Flávio concentrou sua fala em temas políticos, como corrupção, Pix e o calendário eleitoral, argumentando que este seria "o pior momento possível" para a adoção das tarifas devido às eleições de outubro.