Economia
Indústria e agronegócio do Brasil unem forças contra tarifa de 25% dos EUA
As audiências, promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), são parte de uma investigação baseada na Seção 301
Entidades brasileiras dos setores industrial e agropecuário se mobilizam em audiências públicas nos Estados Unidos para tentar barrar a tarifa de 25% proposta pelo governo norte-americano, alegando falta de base técnica e riscos para as cadeias produtivas integradas entre os dois países.
As audiências, promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), são parte de uma investigação baseada na Seção 301, que pode resultar em aumento expressivo dos custos das exportações brasileiras e afetar também a indústria norte-americana.
Segundo a imprensa brasileira, representantes da indústria e do agronegócio argumentam que a tarifa não possui justificativa técnica, econômica ou jurídica. Destacam ainda que as economias de Brasil e EUA são integradas, e que a medida encareceria insumos, pressionaria preços ao consumidor e elevaria a inflação nos Estados Unidos.
Participam das sessões entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que apresentam dados para rebater as acusações norte-americanas.
A Fiesp ressalta que a tarifa impactaria setores de maior valor agregado em São Paulo, como máquinas, autopeças, alimentos industrializados e móveis. A entidade também contesta pontos da investigação, destacando avanços do Brasil em propriedade intelectual, a já existente redução de tarifas para produtos dos EUA, o aumento da produtividade agrícola sem expansão do desmatamento e a complementaridade comercial entre os países.
Roberto Azevêdo, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, afirmou a um jornal de grande circulação que as alegações do USTR não se sustentam e que a tarifa não resolverá os problemas apontados pelos EUA. Para ele, a medida elevaria custos produtivos em ambos os países e exigiria maior articulação política entre os governos para evitar prejuízos bilaterais.
A CNI reforçou que não há evidências de discriminação contra empresas norte-americanas no Brasil e que a sobretaxa ampliaria a imprevisibilidade para o setor privado. A entidade defende negociações diretas entre os governos, alertando para o impacto das mudanças constantes na política comercial dos EUA sobre investimentos e planejamento empresarial.
A Abimaq, por sua vez, vai solicitar a exclusão do setor de máquinas e equipamentos da tarifa, destacando que 82% das exportações brasileiras para os EUA ocorrem entre empresas do mesmo grupo econômico. A entidade argumenta que a ruptura dessas cadeias elevaria custos da indústria norte-americana, que depende de equipamentos desenvolvidos sob encomenda e com certificações específicas.
No setor siderúrgico, o ferro-gusa também preocupa. O Sindifer defende a retirada do produto da lista de afetados, ressaltando que o insumo é essencial para siderúrgicas norte-americanas, difícil de substituir e produzido no Brasil com menor impacto ambiental, graças ao uso de carvão vegetal de florestas plantadas. O setor destaca que 83% das exportações brasileiras têm como destino os EUA.
No agronegócio, segmentos como mel, café solúvel e pescados alertam que a tarifa pressionaria preços ao consumidor norte-americano e afetaria cadeias produtivas internas. A CNA afirma que os acordos comerciais brasileiros seguem as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e que o crescimento agrícola é resultado de produtividade, não de desmatamento, citando a queda de 79% no desmatamento amazônico entre 2005 e 2026.
Desde a primeira investida tarifária do governo Trump, o Brasil tem defendido que a relação comercial entre os países é complementar e não deveria sofrer novas barreiras. A possível imposição da tarifa de 25% pelos EUA, no entanto, expõe a fragilidade da relação bilateral.
Para indústria e agronegócio brasileiros, é fundamental ampliar negociações, reduzir incertezas e preservar cadeias produtivas integradas que sustentam investimentos e empregos nos dois países.

