Economia
Por que o 'Pix mexicano' não teve o mesmo sucesso do sistema brasileiro?
Após um relatório dos EUA criticar o Pix, o sistema instantâneo criado pelo Banco Central do Brasil, usuários de redes sociais no México manifestaram o desejo de adotar um modelo semelhante
Enquanto muitos países enfrentam desafios para implementar sistemas de pagamentos eletrônicos amplos e acessíveis, o Brasil alcançou um feito notável com o Pix, que movimenta bilhões de dólares em transações diárias. Para entender os fatores desse sucesso, a Sputnik ouviu um especialista.
Após um relatório dos EUA criticar o Pix, o sistema instantâneo criado pelo Banco Central do Brasil, usuários de redes sociais no México manifestaram o desejo de adotar um modelo semelhante.
"Queremos o Pix no México, estamos fartos de pagar comissões para financiar genocídio!", escreveu um usuário no X.
No entanto, o México já conta com o CoDi, plataforma lançada pelo Banco do México (Banxico) em 2019, que permite pagamentos sem comissão via celular.
Apesar da versatilidade, o uso do CoDi no México ainda é limitado se comparado ao Pix no Brasil, onde a população tem abandonado cada vez mais o dinheiro em espécie e os cartões, segundo dados dos bancos centrais dos dois países.
Um caso excepcional
"É um fenômeno bastante interessante e, de fato, o que aconteceu no Brasil é extraordinário", afirma à Sputnik o economista César Francisco Duarte Rivera, pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas (IIE) da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), especialista em criptomoedas e moedas digitais.
"O Brasil não é o caso paradigmático, mas sim a exceção nesse tipo de processo", visto que "outros países que tentaram ajustes semelhantes são um pouco mais parecidos com o México", no sentido de que leva muito tempo para a sociedade aceitá-los ou utilizá-los no dia a dia.
Entre os fatores que explicam o êxito das iniciativas, Duarte Rivera destaca o momento do lançamento: enquanto o CoDi surgiu pouco antes da pandemia de Covid-19, o Pix foi implementado em 2020, coincidindo com o início da crise sanitária.
"Digamos que o Pix estava no lugar certo na hora certa, justamente quando estávamos todos preocupados porque não tínhamos certeza de como o vírus era transmitido, se era seguro usar dinheiro em espécie, e o Pix ofereceu uma solução para realizar pagamentos sem contato", analisa o economista.
Ele acrescenta que "o CoDi já existia, e as pessoas não lhe davam muita atenção, então não se pensou muito em implementá-lo".
Acordos e adesão ampla
Outro ponto fundamental, segundo Duarte Rivera, é que sistemas de pagamento só ganham força quando são aceitos por todos.
"As pessoas só começam a aceitá-los quando veem que todos os outros os aceitam, os usam, e a questão é: como começar?"
A resposta, explica o economista, está em acordos amplos entre bancos centrais e grandes empresas, como redes de supermercados, lojas de departamentos e estabelecimentos de conveniência.
"Uma coisa que o Brasil fez muito bem foi garantir, desde o início, acordos com esses tipos de agentes, o que significou que, quando o Pix surgiu, estava em todos os lugares", diz o pesquisador.
No Brasil, o Banco Central tornou obrigatório o Pix para instituições financeiras e de pagamento com mais de 500 mil contas ativas. Assim, praticamente todos os bancos e fintechs do país oferecem o sistema, que é gratuito para pessoas físicas, incentivando seu uso em empresas, serviços e transações entre pessoas.
No México, por outro lado, ainda é difícil encontrar estabelecimentos que aceitem o CoDi, e faltou uma campanha de divulgação que explicasse sua utilidade e vantagens.
"No fim das contas, tudo se resume a uma questão de percepção [e as pessoas se perguntam]: por que eu usaria algo novo se não resolve uma necessidade minha, ou por que eu usaria o CoDi se posso pagar com meu cartão?", destaca o especialista.
Diante disso, Duarte Rivera acredita que o Banco do México precisa repensar sua abordagem, buscando uma ferramenta mais abrangente, como o Pix.
Benefícios de sistemas locais
Em meio a tensões entre Brasil e Estados Unidos, o presidente colombiano Gustavo Petro sugeriu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a expansão do Pix para a Colômbia, considerando-o uma alternativa eficiente no sistema financeiro internacional.
Na Colômbia, porém, já existe o Bre-B, lançado pelo Banco Central local, que permite transferências rápidas e sem restrições de tempo.
"A importância de um sistema como o Pix está precisamente relacionada à reação nos Estados Unidos", explica Duarte Rivera. "Um risco muito alto associado à crescente digitalização dos pagamentos é que ainda utilizamos sistemas privados e estrangeiros."
"Usamos Visa, Mastercard, MercadoPago, que é argentino [...]. O problema é que, por serem privados, o que realmente é priorizado é o lucro", observa Duarte Rivera.
Além da inclusão financeira, esses sistemas oferecem mais segurança, agilidade e isenção de custos, além de permitir maior controle governamental sobre as transações – algo crucial para combater problemas como insegurança e lavagem de dinheiro na América Latina.
Pix regional é possível?
Questionado sobre a viabilidade de um sistema regional de pagamentos, Duarte Rivera avalia que, economicamente e tecnicamente, é possível. Politicamente, porém, seria necessário abandonar o uso do SWIFT — sistema bancário internacional sob forte influência dos EUA — para transações na América Latina e Caribe.
Segundo o especialista, o atual cenário político, mais alinhado à direita, torna improvável que a maioria dos países da região adote uma iniciativa que implique em afastamento dos Estados Unidos.

