Economia
Novo ataque ao Pix reflete temor dos EUA com perda de domínio global
Essas críticas surgem quase um ano após o Pix ter sido apontado como um dos motivos para tarifas impostas pela Casa Branca, com manifestações diretas do então presidente Donald Trump
Em entrevista à Sputnik Brasil, economistas afirmam que a eficiência do Pix e seu potencial de se tornar referência regional incomodam Washington. Para o Brasil, o sistema representa um ativo estratégico para a soberania econômica e tecnológica.
Em relatório recente, o governo dos Estados Unidos voltou a criticar o Pix, alegando prejuízo às bandeiras de cartão de crédito norte-americanas e questionando o fato de o Banco Central brasileiro deter, operar e regular o sistema, além de supostamente conceder tratamento preferencial.
Essas críticas surgem quase um ano após o Pix ter sido apontado como um dos motivos para tarifas impostas pela Casa Branca, com manifestações diretas do então presidente Donald Trump.
Apesar do desconforto em Washington, a expansão do Pix segue acelerada. Segundo o Banco Central, o sistema já alcança mais de 170 milhões de brasileiros, cerca de 80% da população. No segundo semestre de 2025, o Pix registrou R$ 78,4 bilhões em pagamentos, movimentando um total de R$ 68,2 trilhões.
A expectativa é de crescimento ainda maior em 2026, já que apenas em janeiro foram realizadas mais de 7 bilhões de transações via Pix.
Por que o Pix incomoda os EUA?
O professor Ruy Santacruz, da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que a postura dos EUA reflete o desejo de manter uma liderança global que está sendo gradualmente desafiada.
"Trump está atento a cada detalhe que possa reafirmar a liderança americana. O Pix, especificamente, representa uma ameaça aos cartões de crédito."
O incômodo é ampliado pela presença da China na América Latina e pela popularidade do Pix, que já começa a ser aceito em outros países com grande fluxo de turistas brasileiros. Nações como a Colômbia cogitam adotar o sistema, o que pode reduzir ainda mais o espaço das bandeiras americanas na região.
"Se o Pix se difundir por toda a América Latina, as bandeiras americanas podem perder espaço e faturamento. Trata-se de manter influência não só regional, mas global", afirma Santacruz.
Hugo Garbe, economista-chefe da G11 Finance & Restructuring, acrescenta que o desconforto dos EUA aumenta diante da possibilidade de interoperabilidade internacional do Pix, sobretudo no comércio intrarregional, reduzindo a dependência do dólar como moeda de liquidação. Mesmo que essa mudança seja gradual, o impacto simbólico e estrutural é relevante.
"A hegemonia do dólar não se sustenta apenas por fundamentos macroeconômicos, mas também por uma arquitetura institucional que inclui sistemas de pagamento. O Pix, como alternativa eficiente e de baixo custo, desafia essa estrutura."
Garbe destaca ainda que o Pix é um ativo estratégico para o Brasil, pois combina infraestrutura pública com participação privada, permitindo ao Estado coordenar padrões, promover inclusão financeira e preservar autonomia regulatória.
"Esse arranjo fortalece a capacidade do país de conduzir sua política monetária e de pagamentos sem dependência de agentes externos. Demonstra a viabilidade de soluções domésticas em um setor historicamente dominado por plataformas globais."
No cenário político, Garbe acredita que, em ano eleitoral, o tema pode ganhar contornos simbólicos, sendo usado tanto para defender a soberania nacional diante de ameaças externas quanto para levantar discussões sobre riscos regulatórios e concorrenciais.
"O debate tende a transcender o campo técnico e assumir contornos simbólicos, amplificando sua sensibilidade no ambiente eleitoral."
Para Santacruz, o Brasil não pode abrir mão do Pix, instrumento que se mostrou democrático e capaz de ampliar o acesso ao mercado financeiro, especialmente para pessoas de baixa renda, além de garantir praticidade para todas as classes sociais.
"É impensável abrir mão do Pix. Nenhum presidente brasileiro conseguiria propor isso sem perder apoio popular. O sistema está consolidado."
Segundo ele, o tema dificilmente será central nas eleições, a não ser como estratégia para reforçar a aproximação política entre o bolsonarismo e o governo Trump.
"Como Trump é aliado da direita de Flávio Bolsonaro, um governo mais alinhado à direita seria mais receptivo a pressões dos EUA", avalia Santacruz.
O professor acredita que não há meio-termo possível com os EUA: "Ou se tem o Pix, ou não se tem. Eles não querem que a gente tenha, pois prejudica as bandeiras americanas." No entanto, ele minimiza o impacto econômico dessas perdas para os Estados Unidos, afirmando que não se trata de um tema central na relação bilateral.
"É pouco para influenciar a relação Brasil-EUA. Não é algo tão relevante quanto aço ou outros setores estratégicos."
Já Garbe vê espaço para o Brasil adotar uma estratégia de equilíbrio, apostando em maior transparência regulatória, reforço da neutralidade competitiva e abertura controlada à interoperabilidade internacional, inclusive com participação de agentes estrangeiros sob regras claras.
O desafio, segundo ele, é preservar as vantagens estruturais do Pix — seu caráter inclusivo, eficiente e de baixo custo — sem gerar a percepção de fechamento de mercado.
"Em última instância, trata-se de conduzir uma diplomacia econômica que reconheça o valor estratégico dos sistemas de pagamento, evitando a politização excessiva e mantendo o foco na eficiência, inovação e cooperação internacional."
Por Sputnik Brasil

