Economia

Parceria entre Petrobras e Pemex pode ampliar produção e tecnologia

Acordo prevê atuação em águas profundas e troca de conhecimento sobre diferentes tipos de petróleo

Por Redação* 03/04/2026 15h03 - Atualizado em 03/04/2026 15h03
Parceria entre Petrobras e Pemex pode ampliar produção e tecnologia
Acordo pode ampliar produção e fortalecer relação entre Brasil e México - Foto: © Foto / Ricardo Stuckert / Presidência da República

Analistas destacam que a Pemex pode adquirir conhecimento em perfuração de poços profundos e alavancar sua produção, enquanto a Petrobras amplia sua experiência ao trabalhar com tipos de petróleo distintos do pré-sal brasileiro.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs à mandatária do México, Claudia Sheinbaum, uma parceria estratégica entre a Petrobras e a estatal mexicana Pemex. O objetivo é explorar poços profundos no Golfo do México e apoiar o desenvolvimento de biocombustíveis no país vizinho.

Conforme anunciado por Sheinbaum, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, visitará o México ainda este mês para se reunir com diretores da Pemex, autoridades do setor energético e a própria presidente mexicana.

Brasil e México, as duas maiores economias da América Latina, vêm intensificando diálogos para aprofundar laços econômicos. Entre as iniciativas, destaca-se a visita do vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, ao México em 2025.

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam que a parceria Petrobras-Pemex traz vantagens para ambos os lados. Enquanto a Pemex poderá aprimorar suas técnicas de extração em águas profundas e elevar a produção, a Petrobras terá a oportunidade de operar com um petróleo diferente do pré-sal — semelhante ao encontrado na Margem Equatorial, no norte do Brasil.

Mahatma Ramos, diretor-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), ressalta que a aproximação evidencia a aposta da Petrobras na relevância contínua do petróleo. Além disso, operar no Golfo do México posicionaria a estatal brasileira em uma área estratégica.

"Todas as atividades exploratórias de produção, desenvolvimento e, posteriormente, refino e revenda de combustíveis têm um processo de longa maturação desses investimentos. [...] A Petrobras já tem, nos últimos anos, sinalizado atuação internacional com as atividades exploratórias na Colômbia e na costa ocidental da África, retomando a tradição de atuar em mercados além do brasileiro."

Segundo Ramos, a entrada da Petrobras no Golfo do México envolverá uma joint venture com a norte-americana Murph Exploration and Production, o que permitirá dividir riscos na operação.

"A Petrobras é um player consolidado nas atividades de exploração e produção internacional. Esse avanço para o Golfo do México deve ser visto pelo mercado como um sinal positivo da busca por novas fronteiras exploratórias, mercados, receitas e ampliação da capacidade de geração de riqueza."

Cloviomar Cararine Pereira, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) na subseção da Federação Única dos Petroleiros (FUP), observa que nenhuma empresa do setor atua isoladamente, sendo fundamental a troca de conhecimento entre companhias estatais e privadas.

Para a Petrobras, que avalia explorar bacias na Margem Equatorial, é estratégico acumular experiências e técnicas de segurança em diferentes tipos de petróleo.

"A Petrobras tem muito interesse naquela região por conta da Margem Equatorial. [...] Conhecer o Golfo do México, sua realidade de produção, é importante porque se assemelha mais à Margem Equatorial do que à Bacia de Campos ou de Santos, por exemplo."

Pereira também destaca o valor político da aproximação entre Brasil e México, contrapondo-se à influência dos Estados Unidos, que rebatizaram a região como "Golfo da América" durante o governo Trump.

"A Pemex tem reduzido muito sua produção. Essa troca com a Petrobras pode ser fundamental para retomar a produção local e, de certa forma, proteger-se de possíveis pressões do governo norte-americano sobre as reservas. A Petrobras entra na parceria com interesses próprios, não apenas para ajudar."

É o passo certo para o Brasil?

O Brasil é autossuficiente em petróleo desde o início do século, mas cerca de 30% do combustível consumido é importado, pois o parque de refino nacional não atende toda a demanda interna.

"O que esperamos, como sociedade civil, é que a Petrobras invista na expansão do parque de refino e na ampliação da oferta de insumos, sejam de baixo carbono ou tradicionais, para abastecer o mercado interno e explorar novas fronteiras", afirma Ramos.

Ramos lembra que aumentar a capacidade de refino não elimina a importância de explorar novos poços, seja no Brasil ou no exterior. O pré-sal, uma das maiores descobertas do setor em 50 anos, colocou o país no centro da geopolítica do petróleo.

"A importância estratégica do pré-sal ficou evidente ao se tornar alvo de espionagem internacional e de uma crise política que culminou em um golpe de Estado, tendo a Petrobras e as reservas de petróleo no epicentro das disputas."

Pereira reforça a necessidade de a Petrobras expandir sua atuação exploratória, acumulando conhecimento em diferentes realidades e tecnologias.

"O grande negócio de uma empresa de petróleo é descobrir novas reservas e aprimorar a extração. Quanto mais a Petrobras atuar em diferentes bacias e realidades, melhor será sua expertise tecnológica."

No tocante ao refino, Pereira aponta que o Brasil não avançou devido a decisões tomadas durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

"É fundamental que o país invista em novas refinarias para abastecer totalmente o mercado nacional. Atualmente, há deficiência de diesel, por exemplo, que poderia ser suprida com mais unidades de refino."

América Latina: muita reserva, pouca produção

Pereira destaca que a Venezuela detém as maiores reservas inexploradas de petróleo do mundo, com 17% do total global. Somando-se outros países da América do Sul e Central, a região concentra 20% das reservas mundiais, atrás apenas do Oriente Médio (50%).

Apesar da expressiva quantidade de barris, a América Latina responde por apenas 8% da produção global de petróleo. Para o economista, "há grande potencial de aumento produtivo, inclusive em refinados, mas faltam parcerias entre estatais para troca de conhecimento e utilização da renda em benefício da população regional".

"Precisamos integrar e potencializar o desenvolvimento industrial na região, preservando a soberania e o controle popular sobre as riquezas. Nas últimas décadas, a desregulamentação intensiva das cadeias produtivas criou gargalos e dificultou o avanço industrial latino-americano", conclui Ramos.

*Com informaçoes do Sputnik Brasil