Economia
Brasil e Índia estreitam laços energéticos: expertise indiana em refino pode ajudar Brasilia?
Em 2025, a Índia foi o décimo destino das exportações brasileiras e o sétimo no segmento de petróleo bruto e minerais betuminosos
O reordenamento do sistema internacional, marcado por tarifas inéditas impostas pelos Estados Unidos e conflitos que alteram a dinâmica dos negócios globais, tem levado países a buscar novas estratégias comerciais. Nesse contexto, a Índia vem consolidando sua parceria com o Brasil no setor petrolífero.
Em 2025, a Índia foi o décimo destino das exportações brasileiras e o sétimo no segmento de petróleo bruto e minerais betuminosos. No entanto, apenas nos dois primeiros meses deste ano (janeiro e fevereiro), o cenário mudou significativamente: Nova Deli tornou-se o segundo maior destino do petróleo brasileiro, superando os Estados Unidos e ficando atrás apenas da China.
Além disso, a Petrobras ampliou este ano os contratos de venda de petróleo para as principais refinarias indianas — Indian Oil Corporation Limited (a maior delas), Bharat Petroleum Corporation Limited e Hindustan Petroleum Corporation Limited. Estima-se que, até março de 2027, as vendas alcancem 60 milhões de barris, com valor superior a US$ 3 bilhões (R$ 15,4 bilhões).
Em entrevista ao jornal indiano Mint, o embaixador brasileiro na Índia, Kenneth Félix Haczynski da Nóbrega, destacou que a elevada capacidade de refino de Nova Deli poderia contribuir para reduzir a vulnerabilidade do Brasil nessa área. O diplomata também mencionou a possibilidade de instalação de refinarias indianas no Brasil, em eventual colaboração para produção interna de derivados como o diesel, essencial para o transporte rodoviário e ferroviário nacional.
À Sputnik Brasil, André Figueiredo Nunes, doutor em ciências militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e analista de relações internacionais na Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON), avalia que a parceria pode ser promissora no futuro, mas os acordos atuais não preveem a instalação de refinarias indianas no Brasil.
"O modelo de negócios dos contratos recentes em relação à Índia é mais favorável à exportação de petróleo bruto do que à redução do gap de refino no Brasil", observa.
Os acordos, firmados em meio a conflitos militares envolvendo grandes exportadores e à imposição de tarifas pelos Estados Unidos à Índia pela importação de petróleo russo, resultam em ganhos concretos para o Brasil. "A Petrobras incrementa suas exportações de petróleo para a Índia e se apresenta como um importante parceiro estratégico", afirma Nunes. Com isso, o Brasil, diante do terceiro maior consumidor de petróleo e quarto em capacidade de refino, "aumenta seu peso como fornecedor confiável e estratégico no contexto do Sul Global, além de fortalecer o diálogo em fóruns internacionais como o BRICS e o G-20".
Nesse cenário, segundo o analista, o Brasil pode obter vantagens ao importar petróleo refinado, adquirindo o produto a preços mais baixos e beneficiando setores como agronegócio, aviação, transporte de cargas e, principalmente, o consumidor final.
Por outro lado, diante do contexto geopolítico marcado por instabilidade, Nunes ressalta que "o investimento na Petrobras e em refinarias nacionais ganha valor estratégico, visando principalmente à segurança e à soberania energética diante de crises internacionais que impactam o preço do barril".
Por Sputnik Brasil


