Economia
Entenda a crise que derrubou o Banco Master e levou Vorcaro à prisão
Nova prisão de Daniel Vorcaro e ação do Banco Central expõem esquema bilionário, CDBs com juros acima do mercado e impacto no FGC
A liquidação do Banco Master pelo Banco Central do Brasil, decretada em novembro do ano passado, e a nova prisão do empresário Daniel Vorcaro aprofundaram a crise que já atingia o conglomerado financeiro. A turbulência também levou à liquidação do Will Bank e do Banco Pleno, instituições ligadas ao mesmo grupo.
Vorcaro foi preso novamente nesta quarta-feira (4), em São Paulo, durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal. A investigação apura suspeitas de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos, atribuídas a uma organização criminosa que teria movimentado bilhões de reais.
Da expansão ao colapso
Fundado em 1974 como corretora, o grupo evoluiu ao longo das décadas até se consolidar como banco múltiplo, ampliando atuação em crédito, investimentos e gestão de recursos. Nos últimos anos, ganhou destaque ao oferecer produtos de renda fixa com rentabilidade muito superior à média do mercado.
A partir de 2022, no entanto, surgiram dúvidas sobre a saúde financeira da instituição. O alto custo de captação, a exposição a ativos considerados arriscados e as dificuldades para concluir negociações de venda agravaram a situação.
Em 2024, avançaram tratativas para a venda de 58% do capital ao Banco de Brasília (BRB), em operação estimada em R$ 2 bilhões. O negócio passou a ser questionado por órgãos de controle e acabou não se concretizando. Outras propostas também não prosperaram.

CDBs com juros muito acima do mercado
O principal sinal de alerta foi a emissão de CDBs com taxas entre 130% e 180% do CDI, patamar considerado incompatível com a prática de bancos sólidos, que costumam captar a 100% ou 105% do índice.
Especialistas apontam que a estratégia indicava dificuldade de acesso a crédito mais barato. Para pagar juros tão elevados, o banco precisaria emprestar a taxas ainda mais altas, assumindo riscos maiores. Segundo as investigações, parte dos recursos captados teria sido usada para honrar compromissos anteriores, em uma dinâmica considerada insustentável sem novo aporte de capital.
Com o aumento da desconfiança, investidores tentaram vender seus títulos no mercado secundário, mas encontraram escassez de compradores. As taxas chegaram a 177% do CDI na tentativa de atrair interessados.
Investigações e bloqueio bilionário
As apurações tiveram início após requisição do Ministério Público Federal para investigar a suposta criação de carteiras de crédito fictícias. De acordo com a PF, esses ativos teriam sido negociados entre instituições e substituídos sem avaliação técnica adequada.
A nova prisão de Vorcaro foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. A Justiça determinou bloqueio e sequestro de bens que podem chegar a R$ 22 bilhões para garantir eventual ressarcimento. Estimativas apresentadas no Senado apontam que o esquema investigado pode ter movimentado cerca de R$ 12 bilhões.
Impacto no Fundo Garantidor de Créditos
Após a liquidação, a maior parte dos correntistas foi atendida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em aplicações como CDB, LCI, LCA, poupança e depósitos à vista.
O FGC deverá desembolsar aproximadamente R$ 51 bilhões para ressarcir clientes do Banco Master, do Will Bank e do Banco Pleno. Até o momento, mais de R$ 37 bilhões já foram pagos, beneficiando centenas de milhares de credores.
Com a liquidação extrajudicial, as operações foram suspensas, a diretoria afastada e um liquidante nomeado para administrar os ativos e passivos da instituição. Clientes com valores acima do teto do FGC passaram a integrar a lista de credores da massa falida e dependerão da venda de ativos para eventual ressarcimento.


