Ciência, tecnologia e inovação

Estudantes de Mata Grande criam hidrogel sustentável para combater a seca

Projeto utiliza resíduos de conchas de sururu e palma forrageira para reter umidade no solo e chega à etapa nacional de competição do Sebrae

Por Agência Alagoas com Redação 04/11/2026 15h03
Estudantes de Mata Grande criam hidrogel sustentável para combater a seca
Entre os dias 1º e 4 de dezembro, eles estarão em Brasília apresentando o projeto - Foto: Alexandre Teixeira e Ana Paula Lins / Ascom Seduc

Quatro estudantes da Escola Estadual Demócrito Gracindo, em Mata Grande, desenvolveram um hidrogel ecológico e biodegradável que pode contribuir para reduzir os impactos da seca na agricultura familiar. Batizado de AgroSururu, o produto combina mucilagem da palma forrageira com pó de cascas de sururu descartadas no Vergel do Lago, em Maceió, transformando resíduos em uma alternativa para melhorar as condições do solo no Sertão alagoano.

A solução funciona como um condicionador de solo, ajudando a neutralizar a acidez e reter água, que é liberada gradualmente para as raízes das plantas. A proposta dispensa o uso de polímeros sintéticos poluentes e aproveita as propriedades do carbonato de cálcio presente nas conchas.

A equipe Araújo Jorge, formada por Madson Nunes (15 anos), Débora Lemos (15), Julya Fagundes (15) e Anna Clara Japiassú (16), conquistou uma vaga na etapa nacional do Desafio Liga Jovem, promovido pelo Sebrae. O grupo apresentará o projeto em Brasília, entre os dias 1º e 4 de dezembro. Nos dias 29 e 30 de outubro, o protótipo também foi apresentado na Semana de Inovação, Pesquisa, Tecnologia e Empreendedorismo (Sinpete), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

A ideia surgiu durante a elaboração da proposta para a competição, a partir da identificação de dois problemas ambientais: o descarte de conchas de sururu na capital e a escassez de água no Sertão. Débora Lemos explica que a equipe buscou integrar as duas realidades em uma única solução.

“Foi um processo de conectar duas pontas de Alagoas através da sustentabilidade. Enquanto em Maceió as cascas de sururu acumulam-se como resíduo, aqui no Sertão enfrentamos a escassez de água e a perda de nutrientes do solo. Perceber que o que é descartado na capital guarda propriedades ricas em carbonato de cálcio foi a chave do projeto”, explica Débora.

O desenvolvimento do hidrogel exigiu uma série de experimentos para encontrar a proporção adequada dos ingredientes. Segundo a estudante, a consistência do material foi um dos principais obstáculos durante os testes.

“O maior desafio foi descobrir na prática a proporção exata entre a palma forrageira e a casca de sururu. Passamos semanas testando diferentes misturas no solo. Em alguns testes, a fórmula endurecia rápido demais; em outros, ficava muito líquida e era absorvida antes do tempo”, relata.

Madson Nunes destaca que a preocupação com os pequenos agricultores e com a preservação da Caatinga foi determinante para a construção da proposta. “O que é lixo para alguns pode ser riqueza para outros. Unimos as pontas: Mata Grande e Maceió”, destaca.

O estudante também explica que o produto foi pensado para facilitar a aplicação no campo. “Expliquei que usamos a palma, que ela conhece, misturada ao pó da casca de sururu. Forma uma pasta que é enterrada na raiz da planta e regada. Essa pasta segura a água, funcionando como uma esponja, liberando a umidade quando a terra seca. É como um regador natural”, resume.

Outro desafio envolveu o preparo da palma forrageira. Julya Fagundes ficou responsável por acompanhar a extração e a secagem da mucilagem, etapa que exigia atenção para evitar a fermentação do material.

“O maior desafio foi acertar no tempo de secagem. Às vezes a palma fermentava porque não secava direito. Ajustamos o tempo no sol e deu certo”, relembra.

A participação na competição também exigiu superar imprevistos. Durante a apresentação virtual, a equipe ficou sem internet na escola e precisou procurar sinal de Wi-Fi nas ruas à noite para concluir a etapa. A classificação nacional foi anunciada quase um mês depois.

Anna Clara Japiassú também foi selecionada para o programa Daqui pra o Mundo, do Governo de Alagoas, e participou de um intercâmbio de um mês na Inglaterra. A estudante retorna ao Brasil a tempo de se preparar com os colegas para a apresentação em Brasília.

Orientação escolar


O projeto contou com a orientação da professora de Sociologia e Projeto de Vida, Thaís Souza, que acompanha os estudantes desde abril. A docente auxiliou na organização da pesquisa, enfrentou dificuldades burocráticas, providenciou transporte e ajudou a conseguir conchas de sururu para os experimentos.

Além do desenvolvimento científico, a experiência despertou nos estudantes novas perspectivas profissionais e interesse pelo empreendedorismo. Para Débora, que pretende cursar Medicina, a participação na iniciativa ampliou seus horizontes. “O grande diferencial foi que essa experiência abriu nossos olhos para o empreendedorismo, algo novo para nós”, afirma.

A classificação para a etapa nacional também representa uma conquista para Madson. “Sair do interior de Alagoas para Brasília é surreal. É bom saber que acreditam na juventude e no nosso potencial”, conclui.

Já Julya, que pretende cursar Direito, destaca a importância de aproveitar oportunidades. “Nós, do interior, não imaginávamos que conseguiríamos. O conselho é tentar, se esforçar e aceitar as oportunidades, porque uma hora dá certo”, incentiva.