Ciência, tecnologia e inovação
Substância comum em vapes altera células ligadas ao início do embrião
Estudo em laboratório indica que a vanilina pode afetar a formação de diferentes tecidos, mas efeito em humanos ainda não foi comprovado
A vanilina, substância usada como aromatizante em cigarros eletrônicos, pode interferir em mecanismos envolvidos nas primeiras etapas do desenvolvimento embrionário. A conclusão é de um estudo publicado nesta quarta-feira (12/8) na revista Human Reproduction, que analisou o efeito do composto sobre células-tronco embrionárias humanas.
Os pesquisadores observaram que a exposição à substância modificou o comportamento dessas células, que normalmente têm capacidade de se transformar em diferentes tipos de tecidos e dar origem a órgãos e sistemas do organismo.
Nos experimentos, concentrações elevadas de vanilina provocaram a morte das células. Em doses menores, o composto fez com que elas perdessem parte da capacidade de se transformar em diferentes tipos celulares e passassem a seguir uma formação mais específica.
Segundo os cientistas, essa alteração pode prejudicar processos importantes do desenvolvimento embrionário. A equipe também identificou o mecanismo que pode estar por trás do efeito: a vanilina interagiria com o canal TRPV4, presente na superfície das células.
Quando os pesquisadores bloquearam esse canal em laboratório, as alterações deixaram de ocorrer. A hipótese é que a interação provoque a entrada de cálcio nas células e desencadeie reações que afetam a chamada pluripotência — capacidade de originar diferentes tecidos.
“Essas alterações podem impedir o desenvolvimento normal”, afirmou a pesquisadora Prue Talbot, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, que liderou o estudo, em comunicado.
Apesar dos resultados, os autores ressaltam que a pesquisa foi realizada exclusivamente em laboratório, com células, e não envolveu gestantes. Portanto, o estudo não permite afirmar que a vanilina presente nos cigarros eletrônicos provoque os mesmos efeitos durante uma gravidez.
A pesquisa, no entanto, levanta preocupações sobre a exposição de células embrionárias a componentes dos vapes, especialmente porque ainda existem lacunas sobre os impactos dessas substâncias nas primeiras fases da gestação.
“Há pouco conhecimento sobre como esses produtos afetam o desenvolvimento embrionário”, disse Talbot.
Os pesquisadores também não avaliaram os efeitos de uma exposição prolongada à vanilina. Novos estudos serão necessários para determinar se as alterações observadas em laboratório também ocorrem no organismo humano.
Enquanto isso, a equipe defende maior transparência sobre os componentes presentes nos cigarros eletrônicos e recomenda evitar o uso durante a gestação, principalmente entre mulheres que enfrentam dificuldades para engravidar ou têm histórico de perdas gestacionais.
*Informações de Metrópoles
