Ciência, tecnologia e inovação
Vírus brasileiro entra em catálogo global de patógenos que podem infectar humanos
O Cacipacoré pertence a mesma família da dengue e zika
O vírus Cacipacoré, identificado na Amazônia na década de 1970, passou a integrar um catálogo com os 239 vírus de RNA capazes de infectar seres humanos, publicado neste ano por pesquisadores da China e do Reino Unido na revista científica Nature.
Integrante da família Flaviviridae, a mesma da dengue, zika, febre amarela e vírus do Nilo Ocidental, o Cacipacoré tem despertado o interesse da comunidade científica após estudos recentes ampliarem o conhecimento sobre sua circulação.
Apesar disso, especialistas ressaltam que ainda existem poucos casos humanos documentados. Por isso, ainda não se sabe com precisão a frequência das infecções, sua distribuição geográfica ou o potencial de provocar surtos.
O Cacipacoré é um arbovírus, transmitido por artrópodes, como mosquitos. O vírus também já foi identificado em carrapatos associados a capivaras. Pesquisas sugerem que ele pode estar circulando de forma mais ampla do que se imaginava, embora esse cenário também possa ser explicado pelo avanço das técnicas laboratoriais, que hoje conseguem detectar infecções antes despercebidas.
Segundo o infectologista Edimilson Migowski, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o aprimoramento dos métodos diagnósticos tem ampliado a identificação de vírus pouco conhecidos.
"Quanto mais avançam os métodos diagnósticos, maior é a chance de identificarmos vírus que antes passavam despercebidos nos casos de febre sem causa definida", afirma.
Transmissão ainda é investigada
Os pesquisadores acreditam que o vírus seja mantido em um ciclo silvestre envolvendo aves e mosquitos. Também há indícios de que o Aedes aegypti possa atuar como vetor, mas essa hipótese ainda depende de confirmação científica.
Os poucos casos descritos em humanos apresentaram sintomas semelhantes aos de outras arboviroses, como febre, dor de cabeça, dores musculares, fadiga e mal-estar. Até o momento, não há evidências de que o vírus provoque formas graves da doença com frequência comparável à dengue.
Para a infectologista Gabriele Leite de Camargo, do Hospital Pró-Cardíaco, da Rede Américas, o principal desafio é compreender melhor o comportamento da infecção.
"O Cacipacoré merece acompanhamento científico porque ainda existem muitas lacunas sobre sua circulação e impacto na saúde humana, mas isso não significa que represente uma ameaça semelhante à dengue neste momento", destaca.
Prevenção
Não existe vacina nem tratamento antiviral específico contra o vírus Cacipacoré. Quando há infecção sintomática, o atendimento é voltado ao controle dos sintomas.
Enquanto a forma de transmissão continua sendo estudada, a recomendação dos especialistas é adotar as mesmas medidas de prevenção utilizadas contra outras arboviroses: uso de repelente, instalação de telas e mosquiteiros, eliminação de criadouros de mosquitos e utilização de roupas compridas em áreas de mata ou com grande presença de insetos.
Também é recomendado redobrar a atenção em ambientes silvestres com presença de capivaras e carrapatos, além de fortalecer a vigilância epidemiológica para ampliar o conhecimento sobre esse vírus ainda pouco conhecido.

