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Pesquisa indica que "hobbits" humanos viviam de carcaças na Indonésia

Análise de fósseis indica que a espécie aproveitava carcaças deixadas por dragões-de-Komodo e pode nunca ter dominado o uso do fogo.

Por Redação 08/07/2026 10h10
Pesquisa indica que 'hobbits' humanos viviam de carcaças na Indonésia
Nova pesquisa propõe que o Homo floresiensis adotava estratégias de sobrevivência mais simples do que se acreditava. - Foto: Reprodução

Uma nova pesquisa internacional pode mudar a forma como os cientistas enxergam o Homo floresiensis, espécie humana extinta conhecida como "hobbit" devido à sua baixa estatura. O estudo aponta que esses hominídeos provavelmente não caçavam grandes animais nem dominavam o fogo, sobrevivendo principalmente ao aproveitar carcaças deixadas por predadores, como os dragões-de-Komodo.

Publicado na revista Science Advances, o estudo revisita descobertas feitas desde 2003, quando fósseis do Homo floresiensis foram encontrados na caverna de Liang Bua, na ilha de Flores, na Indonésia. Durante anos, pesquisadores acreditaram que a espécie era capaz de fabricar ferramentas, controlar o fogo e caçar grandes mamíferos, como o Stegodon florensis insularis, um parente extinto dos elefantes.


A nova investigação, porém, analisou novamente as marcas presentes nos ossos desses animais e chegou a uma conclusão diferente. Segundo os pesquisadores, a maior parte das lesões corresponde ao padrão deixado pelas mordidas de dragões-de-Komodo, e não por ferramentas de pedra.


Para testar essa hipótese, a equipe realizou um experimento no Zoológico de Atlanta, nos Estados Unidos. Um dragão-de-Komodo chamado Rinca foi observado enquanto se alimentava de uma carcaça de cabra. As marcas produzidas nos ossos foram examinadas por meio de microscopia e digitalização tridimensional e, posteriormente, comparadas aos fósseis encontrados na Indonésia.


Segundo a paleoantropóloga Elizabeth Grace Veatch, autora principal do estudo, o objetivo era revisar uma interpretação consolidada há décadas.


"Queríamos verificar se realmente havia evidências sólidas de que o Homo floresiensis caçava grandes animais", disse à CNN.


Após as análises, os cientistas concluíram que as evidências favorecem outra explicação.


"Os padrões que observamos são muito mais consistentes com o comportamento de alimentação dos dragões do que com atividades de abate humano", acrescentou Veatch à National Geographic.


As mordidas aparecem principalmente nas partes mais carnudas dos estegodontes, como ombros e quadris, indicando que os dragões eram os primeiros a consumir as presas. Já os poucos cortes atribuídos aos hominídeos foram encontrados em regiões menos nutritivas, como costelas e extremidades, sugerindo que o Homo floresiensis aproveitava apenas os restos deixados pelos predadores.


Esse comportamento, conhecido como necrofagia, teria sido uma estratégia eficiente para evitar confrontos com animais muito maiores. Em vez de disputar alimento diretamente, os "hobbits" exploravam oportunidades disponíveis no ambiente.


Para especialistas, essa diferença é significativa porque a caça organizada de grandes animais exige planejamento, cooperação e transmissão de conhecimento, habilidades normalmente associadas a espécies humanas com cérebros maiores, como o Homo sapiens e os neandertais.


A paleoantropóloga Briana Pobiner, da Smithsonian Institution, acredita que a alimentação da espécie era bastante diversificada.


"Eles provavelmente tinham uma dieta bastante variada, incluindo carne obtida dessas carcaças, além de plantas e insetos disponíveis na ilha", destaca Briana Pobiner, paleoantropóloga da Smithsonian Institution, à CNN. "Manter distância dos dragões e agir coletivamente talvez fosse suficiente para evitar encontros perigosos".


O trabalho também questiona outra hipótese tradicional: a de que o Homo floresiensis dominava o fogo.


Os pesquisadores examinaram milhares de ossos de pequenos roedores encontrados nas mesmas camadas arqueológicas ocupadas pelos "hobbits". Caso fogueiras fossem utilizadas com frequência, seria esperado encontrar sinais de carbonização nesses materiais.


Entretanto, nenhum dos ossos apresentou marcas de queimadura. O mesmo ocorreu com os fósseis de estegodontes. Em contraste, camadas mais recentes da caverna, ocupadas por Homo sapiens há cerca de 46 mil anos, apresentam abundantes vestígios de ossos queimados, reforçando que o uso controlado do fogo pode não ter feito parte da rotina do Homo floresiensis.


Os autores afirmam que essas descobertas se somam a outras pesquisas recentes que vêm reduzindo a complexidade antes atribuída à espécie. Ferramentas consideradas sofisticadas passaram a ser vistas como mais simples, enquanto antigas interpretações sobre o uso do fogo também foram reavaliadas.


Segundo Elizabeth Grace Veatch, um comportamento menos complexo pode indicar que o Homo floresiensis se separou da linhagem humana antes da evolução dessas capacidades.


Ainda assim, os pesquisadores destacam que a espécie permaneceu por centenas de milhares de anos em um ambiente insular repleto de grandes predadores e constantes mudanças ambientais. Essa longa permanência demonstra que, mesmo sem caça organizada ou domínio do fogo, os "hobbits" desenvolveram estratégias eficazes para sobreviver, adaptando-se às condições disponíveis em vez de enfrentá-las diretamente.