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Sociedade que antecedeu os incas revela rituais submersos e templos perdidos
Embora o Império Inca seja frequentemente lembrado como a grande civilização dos Andes, pesquisas arqueológicas indicam que, séculos antes, o Estado Tiwanaku já havia estabelecido uma sociedade sofisticada na região do lago Titicaca
Rituais submersos, sacrifícios de lhamas e templos em locais estratégicos revelam a complexidade religiosa e política do antigo Estado Tiwanaku, civilização andina que antecedeu os incas e deixou marcas profundas no lago Titicaca.
Embora o Império Inca seja frequentemente lembrado como a grande civilização dos Andes, pesquisas arqueológicas indicam que, séculos antes, o Estado Tiwanaku já havia estabelecido uma sociedade sofisticada na região do lago Titicaca, com uma população estimada entre 10 mil e 20 mil habitantes. Fragmentos materiais encontrados nas últimas décadas ajudam a reconstruir parte dessa história pouco conhecida.
Uma das descobertas mais relevantes ocorreu em 2019, quando arqueólogos identificaram evidências de oferendas rituais submersas no recife de Khoa, próximo à Ilha do Sol, na Bolívia. O achado sugere que práticas religiosas estruturadas existiam na região muito antes da ascensão inca, desafiando interpretações tradicionais sobre a cronologia espiritual dos Andes.
De acordo com o antropólogo José Capriles, da Penn State, os Tiwanaku — ativos entre 500 e 1100 d.C. — foram os primeiros a depositar objetos valiosos para divindades locais. Utilizando sonar e fotogrametria 3D, a equipe mapeou o recife e, ao dragar o sedimento, encontrou queimadores de incenso em forma de puma, além de ornamentos de ouro, conchas e pedra.
O puma, símbolo central da iconografia tiwanakota, aparece associado a medalhões de ouro com rostos radiantes, possivelmente ligados à figura mítica Viracocha. As peças, datadas entre os séculos VIII e X, parecem ter sido intencionalmente submersas durante cerimônias realizadas em embarcações, como sugerem as âncoras encontradas próximas às oferendas.
Além dos artefatos, os pesquisadores identificaram ossos de peixes, anfíbios e aves, provavelmente depositados de forma natural. No entanto, quatro lhamas jovens sacrificadas chamaram atenção: seus restos foram enterrados no lago como parte de rituais elaborados, evidenciando a sofisticação religiosa e política do Estado Tiwanaku.
Para os autores, as cerimônias em Khoa revelam não apenas devoção, mas também uma demonstração de poder por parte das elites que controlavam rituais complexos envolvendo sacrifícios, iconografia divina e ostentação de riqueza. Esses elementos sugerem uma sociedade em expansão, capaz de estabelecer redes de contato com outros grupos andinos.
Pesquisas posteriores analisaram mais artefatos do lago, ampliando o entendimento sobre a cultura tiwanakota.
Em 2023, uma nova descoberta reforçou essa visão: ruínas de um grande templo, chamado Palaspata, foram identificadas no topo de uma colina boliviana, a mais de 200 km do centro de Tiwanaku, em um ponto estratégico que conectava rotas comerciais essenciais.
A equipe acredita que o templo desempenhava papel central na articulação territorial do Estado Tiwanaku, demonstrando que essa sociedade pré-inca possuía organização política, religiosa e econômica muito mais complexa do que se imaginava, deixando marcas profundas na história dos Andes antes da chegada dos incas.

