Ciência, tecnologia e inovação

Por que o Nordeste é a região brasileira com mais terremotos?

Espessura reduzida da crosta terrestre, falhas geológicas antigas e a transmissão eficiente das ondas sísmicas ajudam a explicar a maior incidência de tremores na região.

Por Redação 03/07/2026 10h10
Por que o Nordeste é a região brasileira com mais terremotos?
Características geológicas fazem do Nordeste a região brasileira com maior registro de tremores de terra. - Foto: Reprodução/Freepik

Embora o Brasil esteja situado no interior da Placa Sul-Americana e seja considerado um país de baixa atividade sísmica, o Nordeste reúne características geológicas que o tornam a região mais suscetível à ocorrência de tremores de terra. Especialistas apontam que a combinação entre uma crosta terrestre mais fina, falhas geológicas antigas e a estrutura das rochas favorece esses eventos.

Ao contrário do que ocorre em países localizados nas bordas das placas tectônicas, como Chile, Japão e Indonésia, os terremotos registrados no Brasil acontecem no interior da Placa Sul-Americana. Ainda assim, o Nordeste concentra a maior parte dos abalos sísmicos do país devido às características da chamada Província Borborema, formação geológica que abrange boa parte da região.

Sob estados como Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, a crosta terrestre possui entre 30 e 35 quilômetros de espessura, podendo ser ainda menor em alguns pontos. A média mundial ultrapassa os 40 quilômetros, enquanto regiões montanhosas, como o Himalaia, chegam a cerca de 70 quilômetros.

Segundo os especialistas, essa diferença remonta ao período Cretáceo, entre 136 e 65 milhões de anos atrás, quando a América do Sul e a África começaram a se separar durante a abertura do Oceano Atlântico. Nesse processo, a crosta terrestre na região nordestina sofreu um estiramento maior que em outras áreas do continente, tornando-se mais delgada.


"É o chamado efeito de estiramento", explica o engenheiro de estruturas Marcelo Bianco, professor da Universidade de São Paulo (USP), que pesquisou a crosta da região durante seus estudos na Alemanha.

O geofísico Aderson Farias do Nascimento, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), afirma que esse afinamento facilita o acúmulo de tensões capazes de provocar terremotos.


"É uma região que sofreu o processo de estiramento com a abertura do Atlântico. Em regiões assim, muitas vezes há o acúmulo, com facilidade, de forças que podem desencadear terremotos."

Outro fator importante é a presença de inúmeras falhas geológicas antigas, formadas há milhões de anos. Essas estruturas permanecem inativas por longos períodos, mas podem ser reativadas quando as tensões acumuladas na Placa Sul-Americana atingem determinados níveis.

O geólogo Marco Moraes explica que essas tensões chegam ao território brasileiro por diferentes direções. De um lado, a movimentação da dorsal meso-oceânica no Atlântico exerce pressão sobre a placa. Do outro, a Placa de Nazca empurra a Placa Sul-Americana na região dos Andes. Embora essas forças sejam distribuídas por grandes áreas, elas podem provocar acomodações em antigas falhas geológicas.

Além disso, a composição das rochas do Nordeste contribui para a propagação das ondas sísmicas. As formações geológicas da região são antigas e bastante heterogêneas, o que favorece a transmissão da energia liberada durante um tremor.


"A Província de Borborema é muito heterogênea do ponto de vista geológico. São terrenos diferentes, muita rocha metamórfica, muitas falhas antigas… É diferente de outras regiões que são mais estáveis", afirma Marco Moraes.

Apesar dessa maior propensão, especialistas ressaltam que os terremotos registrados no Nordeste costumam apresentar intensidade moderada e estão muito abaixo dos grandes eventos observados em regiões localizadas nos limites entre placas tectônicas. Ainda assim, o monitoramento contínuo dessas falhas é considerado essencial para compreender a atividade sísmica brasileira e ampliar o conhecimento sobre a dinâmica geológica do país.