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Baleias-jubarte quebram recorde ao cruzar mais de 15 mil quilômetros entre Brasil e Austrália

Migração inédita surpreende cientistas e pode indicar mudanças no comportamento da espécie

Por Redação com Metrópoles Ciência 21/05/2026 10h10
Baleias-jubarte quebram recorde ao cruzar mais de 15 mil quilômetros entre Brasil e Austrália
Baleias-jubarte atingiram um récorde, cruzando 15 mil quilômetros entre Brasil e Austrália - Foto: Reprodução

Duas baleias-jubarte realizaram uma travessia considerada inédita entre o Brasil e a Austrália, percorrendo mais de 15 mil quilômetros pelo oceano e estabelecendo um novo recorde mundial de migração para a espécie. A descoberta foi divulgada em estudo publicado na revista científica Royal Society Open Science.

Os animais foram identificados a partir das marcas exclusivas presentes na parte inferior de suas caudas, conhecidas como flukes. As imagens foram comparadas com um banco de dados que reúne mais de 19 mil fotografias registradas ao longo de 40 anos de monitoramento.

Um dos casos mais impressionantes envolve uma baleia fotografada pela primeira vez em 2003 no Banco dos Abrolhos, principal área de reprodução das jubartes no Brasil. Mais de vinte anos depois, o mesmo animal foi registrado em Hervey Bay, após percorrer aproximadamente 15,1 mil quilômetros.

Outra baleia foi inicialmente observada na Austrália em 2007 e, anos mais tarde, reapareceu no litoral do estado de São Paulo, completando uma travessia estimada em 14,2 mil quilômetros em mar aberto.

Descoberta desafia conhecimento sobre a espécie


As baleias-jubarte normalmente seguem rotas migratórias relativamente estáveis, aprendidas ainda durante a infância ao lado das mães. Por isso, a confirmação de uma conexão tão extensa entre áreas de reprodução foi recebida com surpresa pelos pesquisadores.

Segundo a pesquisadora Vanessa Pirotta, a descoberta demonstra que ainda existem muitas lacunas no conhecimento científico sobre o comportamento desses mamíferos marinhos.

Os especialistas acreditam que deslocamentos desse tipo podem ocorrer com mais frequência do que se imaginava, mas são difíceis de identificar devido à enorme extensão dos oceanos e à limitada quantidade de registros disponíveis.

Entre as hipóteses para explicar a mudança de rota estão alterações climáticas, mudanças na distribuição de alimentos e fatores ligados ao comportamento reprodutivo da espécie.

Inteligência artificial ajudou na identificação


A confirmação da migração só foi possível graças ao uso da plataforma Happywhale, que utiliza inteligência artificial para comparar automaticamente os padrões das caudas das baleias, funcionando como uma espécie de sistema de reconhecimento biométrico.

O pesquisador Ted Cheeseman destacou que a tecnologia e a colaboração internacional foram fundamentais para localizar os animais e reconstruir suas trajetórias ao longo dos anos.


Impactos para a conservação



Para os cientistas, o estudo reforça a necessidade de cooperação internacional na proteção de espécies migratórias, já que esses animais atravessam diferentes oceanos e jurisdições durante a vida.


A descoberta também reacende o debate sobre os impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas marinhos, especialmente nas regiões próximas à Antártida, onde as baleias-jubarte costumam se alimentar antes de iniciar suas longas jornadas rumo às áreas de reprodução.