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Corais brasileiros podem desaparecer com aquecimento dos oceanos
Pesquisa aponta “extinção silenciosa” de espécies endêmicas após eventos extremos de branqueamento e acende alerta para o futuro dos recifes no Brasil
Um estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e publicado na revista científica Coral Reefs alerta que os corais-de-fogo brasileiros podem estar passando por um processo de “extinção silenciosa”, impulsionado pelo aquecimento dos oceanos e por sucessivos eventos extremos de branqueamento.
O branqueamento ocorre quando o aumento da temperatura do mar afeta a relação entre os corais e as zooxantelas, microalgas responsáveis por fornecer energia aos organismos por meio da fotossíntese. Sob calor excessivo, essas algas passam a produzir compostos tóxicos, levando os corais a expulsá-las.
A pesquisa foi desenvolvida a partir do monitoramento realizado pelo Instituto Coral Vivo, com apoio da Petrobras, após a grande onda de branqueamento registrada no Brasil em 2019.
O dado mais preocupante envolve a espécie Millepora braziliensis, encontrada apenas no Brasil. Em Tamandaré, no litoral de Pernambuco, dentro da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, a espécie sofreu branqueamento total e perdeu completamente a cobertura viva das colônias monitoradas.
A espécie já é considerada criticamente ameaçada de extinção pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e pela União Internacional para a Conservação da Natureza.
Apesar do nome, os corais-de-fogo não são corais verdadeiros. Segundo os pesquisadores, eles pertencem ao grupo dos hidrocorais e possuem maior proximidade evolutiva com águas-vivas, embora desempenhem funções semelhantes nos recifes. “O coral branqueado ainda não está morto. Ele está na UTI. Mas, se o calor persiste, ele perde energia e pode morrer”, explicou o pesquisador Miguel Mies, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
Atualmente, segundo os pesquisadores, restam cerca de 15 colônias vivas documentadas da espécie Millepora braziliensis após o último grande evento de branqueamento. Além das mudanças climáticas, os recifes brasileiros enfrentam outros impactos, como turismo desordenado, poluição, sedimentação, pesca excessiva e pisoteamento em áreas costeiras.
Em regiões turísticas como Maragogi, em Alagoas, o branqueamento atingiu até 96% dos corais monitorados. Já em Porto de Galinhas, em Pernambuco, o índice chegou a 84%.
Especialistas afirmam que projetos de restauração de recifes ajudam na recuperação dos ecossistemas, mas reforçam que as iniciativas não substituem medidas globais de combate às mudanças climáticas e redução das emissões de gases do efeito estufa.
Segundo os pesquisadores, a perda dos corais-de-fogo representa também ameaça à biodiversidade marinha, já que essas estruturas funcionam como abrigo e área de reprodução para diversas espécies de peixes e invertebrados.


